Capítulo 13 de 41
Residência, Trabalho, Dificuldades, Solidariedade
Gabriel e Marta juntaram as terras, as almas, o entusiasmo, a juventude, a força e a garra, e, em meio a muitas dificuldades, construíram seu lar “fundamentado sobre a rocha”, conforme trecho do evangelho lido no dia de suas bodas de ouro.
A surpreendente força de vontade, fé e confiança em Deus,
foram as formas que encontraram em seu dia a dia,
para subsistir, superar dificuldades e progredir.
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Assim que foi aberta a estrada de Rio Waldrich a Rio do Campo, Germano Haverroth comprou um terreno em Rio do Campo. Com o casamento de Gabriel e Marta, achou que estes deveriam morar ali. Adquiriram então mais um lote, nos fundos daquele e juntaram os dois numa só escritura. Gabriel pagou um conto de réis, que ganhara do pai dele quando saiu de casa. Mas como um lote já estava custando um pouco mais, o sogro Germano completou o que faltava e a diferença ficou para ser acertada mais adiante. Então o terreno de Rio Wildi, que Germano havia comprado para Marta, foi vendido, com reserva da madeira de canela para construção de uma casa para este casal.
Neste terreno de Rio do Campo pertencente agora a Gabriel e Marta, Germano ajudou a escolher o local apropriado para a morada, perto da estrada e não muito longe do rio, para fazer a pastagem das criações com acesso à água. Roçaram e derrubaram o mato (que consistia em taquaral, bracatinga e pinheiros) e plantaram ali uma roça de milho. Era assim que costumavam fazer ao entrar em uma terra nova, primeiro faziam uma lavoura de milho e após a colheita preparavam o terreno para a construção da casa. Desta forma ficava mais fácil para retirar os paus, arrancar as raízes e aplanar o chão.
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Após o casamento, Gabriel e Marta vieram morar numa casinha que havia a uma distância de mil metros adiante do terreno deles e que pertencia a Adolfo Bloemer. Limpavam o pasto como pagamento do aluguel da casa para morar e da pastagem para os animais.
Tinham dois cavalos que o pai trouxera de Forquilhinha; uma vaca com bezerro e uma galinha com pintinhos, que a mãe ganhou dos pais dela; um porquinho, que ganharam de Pedro Steinbach como presente de casamento; dois boizinhos que o pai negociara e domara num pequeno carro de bois, que ele mesmo fabricou antes de casar e dois cachorros.
Ficaram instalados precariamente, naquela casinha alugada, por alguns meses, até construir sua morada definitiva. Naquela casa não havia fogão com chapa. As panelas e a chaleira eram penduradas num gancho que descia do caibro em cima de um quadro de madeira, cheio de barro, no meio do qual se acendia o fogo.
Faziam as plantações no terreno deles. Além da roça já plantada no lugar escolhido para depois fazer a construção da casa, prepararam um pedaço de terra lá nos fundos, onde havia capoeira e não era preciso fazer a derrubada de mato, apenas roçar. Como não era mais mata virgem, significava que alguém já havia produzido lavoura naquela região. Lá plantaram milho, batata doce, cará, batata inglesa, aipim, feijão e couve. Aquela plantação de milho, para decepção do casal, não deu nada, por motivo de muitas chuvas no tempo de limpar a roça.
Mesmo morando distantes do restante da família, muitas vezes o pai saía para trabalhar com outros, trocando dias de serviço, principalmente na derrubada de mato e a mãe ficava sozinha trabalhando nas lavouras.
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A mãe contava que quase não havia frutas e ela que já engravidara logo após o casamento e se alimentava muito mal, tinha vontade de comer qualquer baguinha que encontrava e ainda lembra de algumas ocasiões em que ficou muito feliz. Uma foi no dia em que o vovô Germano veio visitá-la e como não a encontrou na casinha onde moravam, voltou até o terreno deles e ali ela estava sozinha, trabalhando na roça e lhe entregou uma lata cheia de cachinhos de uva. Outra foi quando um dia, seguindo mato adentro, próximo de onde moravam, atrás de um cachorro que latia, encontrou um pessegueiro carregado de pêssegos. E a outra foi quando acharam uma colméia de abelhas, dentro de um pau oco e colheram muito mel, tanto que encheram a gamela de fazer pão e como tinham apenas uma latinha onde guardaram uma parte, foram comendo direto o restante até acabar.
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Enquanto estavam recém instalados em terra nova iniciando suas lavouras, meus pais buscavam o necessário para a alimentação na casa dos parentes em Rio Waldrich. Esta consistia em feijão, farinha de mandioca, aipim, batata doce, farinha de milho, leite, carne de porco e de galinha. Comiam também carne de caça, quando o pai matava algum veado, cotia, ou pássaros como jacus, macucos, rolas e saracuras.
Eram normalmente os homens que caçavam, usando espingardas e pistolas. Mas uma vez a mãe estava sozinha e viu um veado passando devagar perto de casa, parando e olhando para os lados e ela resolveu tentar atirar nele. O pai já tinha ensinado como se fazia para manusear as armas. Então ela entrou em casa, pegou a pistola e como receava não acertar de longe, foi indo cada vez mais perto do local onde ele estava. Quando colocou a pistola em cima de um cepo para mirar melhor, o veado se movimentou e então ela ainda atirou, mas ele fugiu. Algum tempo depois o pai matou um veado que tinha sinal de bala na carne e achou que podia ser aquele mesmo que a mãe havia atingido com o tiro. Esta história foi o pai quem nos contou muitas vezes.
Referindo-se a caçadas, aconteceu um dia, segundo a mãe, um fato sem explicação. O pai foi ver um cachorro que estava latindo e encontrou um pato preso entre espinhos. Por aqui, naquele tempo, ninguém tinha patos e julgaram que aquele devia ter vindo de muito longe, voando ou pela água. Como estava muito magro, prenderam e trataram por um tempo, para matar mais adiante.
Nos primeiros tempos não havia peixes no rio. Julgava-se que era devido à mata muito fechada. Só começaram a aparecer depois de alguns anos, provavelmente trazidos pelas enchentes.
A mãe, às vezes, não sabia o que fazer para comer à noite e se ela perguntava para o pai ele respondia: “pap” que era “mingau”, na linguagem alemã que eles falavam. Era um mingau de leite com farinha de milho, que ela não podia mais nem ver, nem sentir o cheiro, porém, muitas vezes, não tinha outra opção.
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Uma parte da roça de milho plantada na região onde seria construída a casa não deu nada, por ser faxinal. Assim, antes da época da colheita já foi preparado o chão para a construção. A madeira utilizada foi de uma casinha que havia no Tamanduá, na outra margem do rio e foi comprada de uma família que morara lá por pouco tempo. Era madeira de pinheiro e foi puxada com carroças e carros de bois, com ajuda dos irmãos e cunhados e do vovô Germano.
A casa era pequena, com dois quartos e uma sala. A cozinha e a dispensa foram feitas numa varanda emendada para trás. O assoalho era de tábuas largas, só colocadas em cima dos barrotes sem pregar e deixavam grandes frestas. As portas e janelas eram de madeira por isso seu interior ficava completamente escuro, mesmo durante o dia, quando fossem fechadas. Não tinha forro e era coberta de tabuinhas bem finas sobrepostas umas às outras.
O fogão foi feito de barro e tijolos e sobre ele foi colocada uma chapa. Tinha chaminé, mas não puxava muito bem e a fumaça empretecia as paredes e o teto.
Próximo à casa foi logo improvisado um chiqueiro e um galinheiro. O rancho só foi construído mais tarde, por isso a primeira colheita de milho foi guardada dentro de casa.
No mesmo tempo em que foi feita a construção da casa foi cavado um poço, mas este desmoronou logo e foi necessário fazer outro, que também não durou muito, porque a terra não era firme e caía para dentro quando chovia muito e as vertentes ficavam mais fortes. Então, mais adiante, com ajuda do tio Felipe foi feito um terceiro poço e imediatamente revestido de tijolos desde o fundo até em cima. Desta forma deu certo e este é o que estamos usando até o dia de hoje.
O poço ficava próximo à cozinha, protegido por uma pequena cobertura e a água era tirada com um balde preso a uma corda que descia até o fundo por uma roldana e era acionado por uma manivela manual que o trazia de volta cheio de água.
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Meus pais passaram a fazer parte dos primeiros moradores de Rio do Campo, na estrada aberta a partir de Rio Waldrich para o centro.
Os vizinhos mais próximos, assim que fixaram residência aqui, eram: a família de Alberto Röeker, no outro lado do rio, no Tamanduá, na posição bem em frente a este terreno; a família de Pedro Steinbach, ali onde mais tarde ficou morando por muito tempo um dos filhos dele, Rodolfo Steinbach; José Góes, próximo ao cruzamento da estrada de Rio Waldrich com Taiozinho; e, fazendo extrema com os fundos deste terreno, longe da estrada que se abrira, Bernardo Feuser com a esposa Teresa que já tinham um filho. No caminho que seguia daqui para o centro o morador mais próximo era Hilário Bogo, na entrada do Tamanduá.
No centro, no Tamanduá, na Serrinha e no Caçador, já havia diversas famílias de origem italiana e alemã, vindas de regiões diferentes. Também já havia, no centro, a escola, a capela e o armazém de Luiz Bértoli e, na região da Serrinha, a atafona de Leopoldo Fuck.
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O primeiro meio de transporte usado por meus pais foram os cavalos para montaria, o cargueiro e o carro de bois. A carroça só foi adquirida alguns anos depois, em troca de madeira para construção de uma casa.

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Para montar a cavalo a mãe tinha uma sela própria para mulheres, daquelas em que se sentava com as duas pernas do mesmo lado. Assim podia carregar os filhos pequenos no colo. E o fez muitas vezes, principalmente para ir à missa ou à reza do terço aos domingos e para os passeios até Rio Waldrich e Rio Wildi, na casa dos parentes. Os filhos maiores iam montados com o pai, à frente dele.
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O trabalho na lavoura, naquele tempo era muito exaustivo. A primeira coisa a ser feita era a derrubada da mata virgem ou dos capoeirões, com foice e machado. Aí era preciso deixar secar para fazer a queimada. Depois da queimada retirava-se parte da lenha que sobrava para usar no fogão e no forno e o restante ficava no meio da roça até apodrecer.
A primeira lavoura nas “coivaras” (onde havia sido derrubado o mato e feita a queimada) era sempre a plantação de milho. Nos anos seguintes plantavam-se ali outros produtos e faziam-se novas coivaras para o plantio do milho.
Tudo o que meus pais cultivavam, no início, se destinava ao consumo próprio e dos animais, sendo que só às vezes conseguiam vender um pouco de milho. Não tinham fonte de renda e a família vivia com o que produzia.
Como havia muitas borboletas no tempo de verão e havia compradores, nos domingos à tarde e também durante a semana, nas horas de sol quente, o pai e a mãe pegavam borboletas e era com o dinheiro da venda destas que conseguiam pagar o imposto da terra.
A primeira opção de renda da família e que durou por algumas décadas, foi a criação de porcos.
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Desde o início da vida de casados, meus pais tinham o hábito de fabricar polvilho, para fazer roscas. Trabalhavam na roça durante o dia e traziam para casa a mandioca para fazer o polvilho à noite. Como não tinham relógio, muitas noites, trabalhavam madrugada adentro, sem ter noção da hora. Às vezes quando iam dormir já havia galos cantando e mesmo assim ao clarear o dia seguinte estavam prontos para começar tudo de novo.
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Entre os colonos que vieram morar nesta região, havia sempre a ajuda de uns para com os outros. Quando alguém chegava de mudança e ainda não tinha onde morar alojava-se no rancho ou na casa dos que já estavam morando aqui. Assim aconteceu com a família de vovô Germano quando veio de Braço do Norte e se alojou com a família Stüpp e assim continuou sendo com muitos que aqui chegaram.
Na propriedade de meus pais foram diversas as famílias que se alojaram temporariamente: a de Vendolino Nienkotter; a de Inocêncio Varsella; a de Fridolino Nienkotter; a do tio Lino (irmão do pai).
Vendolino e Rosa Nienkotter vieram da região de Ituporanga. Aqui chegando alojaram-se no rancho e ocuparam um dos quartos da casa para dormir, porque a mulher estava grávida, quase completando o tempo de gestação. Quando o bebê (Francisco) estava para nascer foi o pai quem saiu a cavalo, durante a noite, buscar a parteira, Helena Preis, que morava em Rio Waldrich. Esta saía de casa para atender as mulheres no parto, mesmo que fosse durante a noite, viajando tanto de carroça como a cavalo. Vendolino Nienkotter comprou terreno em Taiozinho e construiu lá sua casa.
Inocêncio Varsella construiu uma pequena casa neste terreno próximo à nossa, porque ele tinha a madeira, mas não tinha terra. Morou por um tempo, depois foi embora e só mais tarde veio desmontar a casa e levar as madeiras.
Fridolino Nienkotter, que também veio da região de Ituporanga, morou por mais de um ano naquela casa construída por Inocêncio Varsella, até adquirir seu terreno e construir sua casa em Taiozinho.
O tio Lino e tia Elizabeth, quando vieram para Rio do Campo, ficaram morando junto com nossa família por uns meses. Conforme a mãe conta, naquele período moraram muito apertado, naquela casinha de dois quartos, os dois casais e cinco crianças. Eles adquiriram terreno e construíram sua casa a menos de um quilômetro de distância da nossa, na direção do centro. Ali residiram até 1961 quando mudaram para Pitanga (PR), fixando-se próximo aos familiares da tia Elizabeth que tinham ido para lá há mais tempo.
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A simplicidade e a solidariedade caracterizaram o espírito comunitário entre os primeiros moradores de Rio do Campo.
As pessoas se ajudavam, repartindo a morada (mesmo que o espaço fosse pequeno), a comida (que muitas vezes era pouca) e trabalhando juntos nas lavouras e na construção
de suas casas e ranchos.