Capítulo 21 de 41
Meu retorno a Rio do Campo
Sentada ao volante do meu Gol branco, ano 96, coloquei o cinto de segurança, dei a partida, engatei a marcha, dei um leve toque na buzina e acenei em despedida. Deixei para trás uma jovem bonita, alta, de cabelos compridos e lisos, soltos sobre os ombros, minha filha caçula. Ela estava emocionada, rostinho triste. Sabia que a partir das 7 horas do dia 26 de janeiro de 2003, para ela, a vida não seria mais a mesma. Deste dia em diante passaria a cuidar de si e estava consciente de que minha decisão de partir era por uma causa nobre e justa.
Entrei na Rua Delminda da Silveira, segui em frente até o Shooping Beira Mar, parei diante do sinal vermelho e acionei a seta à direita. Quando o sinaleiro ao alto mostrou sinal verde entrei na Beira Mar Norte, a mais encantadora avenida de Florianópolis. Segui em direção à ponte Colombo Salles, que liga a ilha ao continente. Meu destino: Rio do Campo, pequena cidade do interior de Santa Catarina, a mais de 300 km da capital. Sentia ainda no corpo o aconchego do abraço caloroso de minha filha e no coração a angústia própria da despedida. Podia ouvir ainda a voz trêmula que me desejou boa viagem. Fiz o sinal da cruz, rezei minha oração: “São Cristóvão me ajude a dirigir, meu Anjo da Guarda me proteja, Espírito Santo ilumine meu caminho”. Só então percebi que já havia atravessado a ponte e me encontrava na via Expressa.
Senti-me confiante e segura. Havia completado uma parte de minha missão, que se referia aos cuidados para com meus filhos. Os três concluíram o curso universitário, tornaram-se adultos e agora cada qual seguia o seu caminho. Com o apoio e compreensão deles eu tomara a decisão de partir para uma nova missão e isto me fazia feliz. Estava voltando a minha terra natal, para fazer companhia a minha mãe em sua idade avançada. Eu me propusera a fazer isto desde que meu pai falecera, há oito anos, consciente de que são, segundo a Bíblia, “bem aventurados os filhos que amparam seus pais na velhice”.
O porta-malas do meu carro estava repleto de bagagens. Era a minha “mudança”: roupas, calçados, objetos pessoais e livros. Numa pastinha cor de rosa, que coloquei sobre o assento traseiro, trouxe folhas de papel para rascunho e o sonho de escrever um livro.
Entrei na BR 101, recentemente duplicada, e, conforme havia previsto, o trânsito estava tranquilo, uma vez que se tratava de uma manhã de domingo de verão e eu trafegava em sentido contrário à maioria dos automóveis que, obviamente, se dirigiam às praias. Liguei o aparelho de som do carro e vim ouvindo clássicos sertanejos.
Passei por São José, Biguaçu, Governador Celso Ramos, Tijucas, Itapema, atravessei o túnel do “Morro do Boi”, Balneário Camboriú e Itajaí. No trevo da BR 101 com a BR 470 entrei nesta, e continuei o caminho por Ilhota, Gaspar, Blumenau, Indaial, Ascurra, Apiúna, Ibirama, Lontras, Rio do Sul e Pouso Redondo. Passada a cidade de Pouso Redondo, tomei a SC 422 em direção a Taió. Atravessei esta cidade e segui rumo a Rio do Campo. Quando no painel de meu carro o relógio mostrou 11 horas e 40 minutos um outdoor à beira da estrada me recepcionou: “Bem Vindo a Rio do Campo”. Continuei pela via asfaltada, sem passar pelo centro da cidade, seguindo a indicação: Santa Terezinha. Ao completar 2 km do centro, avistei a casa de minha mãe, sinalizei à esquerda, reduzi a velocidade e entrei pelo caminho livre, coberto de cascalhos. A garagem estava aberta e vazia, à minha espera. Desliguei o carro. Desembarquei.
- “Cheguei, mãe, estou de volta. Eu vim para ficar”.
Como normalmente acontecia aos domingos, a casa estava cheia e era a hora do chimarrão. Recebi um abraço caloroso de boas vindas, dos irmãos, cunhados e sobrinhos que ali se encontravam. A mãe se aproximou, os olhos brilhantes e úmidos, a felicidade estampada em seu rosto. Aquela recepção era a prova de como estava certa a minha decisão de voltar para junto dela.
A conversa continuou, a cuia de chimarrão seguiu seu trajeto normal e me foi servida quando chegou minha vez, na posição que passei a ocupar no círculo. Em seguida almoçamos e seguiram-se as tarefas de rotina: preparar comida para o cachorro e os gatos e efetuar a limpeza da louça e da cozinha.
A mãe foi descansar como fazia todos os dias após o almoço e eu fui para o quarto que me estava destinado com uma cama já arrumada e deixei-me cair sobre ela. A temperatura estava agradável. Uma leve brisa entrava pela janela aberta e balançava a cortina branca de renda. Fechei os olhos e minha mente divagou no passado.
- “Foi aqui, neste mesmo lugar que nasci, cresci, passei minha infância e fui à escola primária. Foi aqui que, muitas vezes, eu fui feliz”.
Uma grande paz tomou conta de mim e, como estava cansada da longa viagem, passei por um cochilo gostoso.
Acordei à meia tarde. A mãe já havia levantado e participava de um jogo de cartas, a canastra, que é seu hobby predileto.
Foi servido então o café da tarde, com roscas de polvilho, docinhos caseiros e cuca de farofa.
Pouco antes de anoitecer todos os que ali estavam se dirigiram para suas casas e eu fiquei com minha mãe.
* * *
A vida para ela e para mim, seguiu num ritmo agradável, em contato constante com as pessoas mais próximas que diariamente nos faziam uma pequena visita para contar alguma novidade, dividir hortaliças e legumes da colheita, ou simplesmente para dar um “alô”.
Além disto os bisnetos: Marcelo, Gabriel e Diego alegravam o ambiente, brincando em volta da casa, indo e voltando com as bicicletas, construindo carrinhos e correndo de um lado para outro.

Eloísa, Gabriel, Marcelo, Cristian, Marta, Luiz Alberto,
Ariadne, Gabriela e Jéssica. Foto: março 2002