Pular para o conteúdo
Valéria Kühlkamp

Capítulo 22 de 41

Progresso, Melhorias, Tecnologias

Grandes modificações aconteceram na localidade de Rio do Campo e no modo de vida dos que aqui residem, comparando-se ao meu tempo de infância. Rio do Campo, emancipada a município em 20 de dezembro de 1961, apresenta hoje características peculiares de uma pequena cidade. Tem prefeitura municipal, fórum, agências bancárias, escritórios de contabilidade e de advocacia, agência de correio, indústrias, casas comerciais, supermercados, farmácias, padarias, floriculturas, casa lotérica, oficinas mecânicas, postos de combustível, hospital, posto de saúde, consultórios médicos e odontológicos, ginásio de esportes, centros de educação infantil, escola com ensino fundamental e médio, educação especial, educação de jovens e adultos e cursos universitários.

Vista de Rio do Campo a partir da estrada de Rio Azul. Foto 2006
Vista de Rio do Campo a partir da estrada de Rio Azul. Foto 2006
Vista de Rio do Campo a partir do Hospital. Foto de 2006.
Vista de Rio do Campo a partir do Hospital. Foto de 2006.

A igreja católica construída na década de 60, continua imponente em seu espaço privilegiado, com os sinos no alto de um pedestal, tendo a um lado a casa paroquial e no outro um grande salão de festas e salas de catequese.

Igreja de Rio do Campo. Foto 2006
Igreja de Rio do Campo. Foto 2006

Lá, no mesmo pátio, moram ainda as Irmãs Catequistas Franciscanas. São agora três, já aposentadas como professoras. Fazem visitas às famílias e aos doentes e dão apoio aos leigos que se dedicam ao serviço da igreja.

A igreja católica, porém, já não é mais a única, na sede deste município. Existem as igrejas: Assembléia de Deus, Deus é Amor, Pentecostal, Presbiteriana, Quadrangular, Reino de Deus, Santas Missões, Santuário da Família, Testemunhas de Jeová e Universal.

A rede de energia elétrica corta os bairros da cidade em todas as direções e estende-se até as localidades mais distantes, oferecendo conforto a toda a população. A água tratada e encanada é distribuída em toda a sede do município. O serviço de telefone privilegia a área urbana e tem ramificações às comunidades do interior.

Uma estrada asfaltada corta o município de Rio do Campo, unindo-o a Taió e Santa Terezinha. Esta Rodovia, a SC 423, passa em frente à residência de minha mãe, que fica à altura do km 23.

Casa de Marta. Foto 2006
Casa de Marta. Foto 2006

A casa atual onde minha mãe reside foi construída em 1975, com a mesma madeira da anterior. Tem na frente uma pequena varanda onde há ainda um daqueles bancos de sarrafos feitos pelo pai, em tempos idos e no qual a mãe costuma sentar, à tarde, para ler.

A área de serviço, feita em alvenaria, é ampla, com espaço para garagem e também para realização de festas, quando se reúnem filhos, noras, genros, netos e bisnetos.

A um canto, próximo à escada que leva para a cozinha, está o velho poço, todo recoberto de cimento, o mesmo que foi cavado e revestido de tijolos, há meio século. A água do poço é tirada com bomba elétrica que a leva até uma caixa de onde é distribuída para a cozinha, os banheiros, o tanque e a máquina de lavar roupas. O espaço em cima deste poço é utilizado para colocar folhagens, que ainda se conservam, em pequena quantidade.

O fogão a lenha deixou de ser o único meio de cozinhar os alimentos. Foi substituído pelo fogão a gás. Exerce agora apenas função auxiliar na cozinha e serve para esquentar a casa no inverno. O preparo da lenha é feito pela família de meu irmão com uso de serra circular ou serra motor.

Um cercado de tela protege o jardim em frente e a horta a um lado da casa da minha mãe. Ali ela ainda cultiva flores e hortaliças, apesar de sua idade avançada.

Do outro lado da casa há um pomar cercado, onde se encontram laranjeiras, limoeiros, tangerineiras, pessegueiros, ameixeiras, caquizeiros, figueiras e goiabeiras, a maior parte destas plantas cheias de musgos, por serem já bastante antigas, mas que produzem ainda bons frutos. Foi com o passar do tempo, à medida em que o frio foi diminuindo nesta região, que meus pais conseguiram cultivar estas árvores frutíferas. Uma jabuticabeira, plantada pela mãe, há anos, está começando agora a produzir.

Atrás da casa há ainda um grande rancho, que em outros tempos foi usado para fumo e milho e que agora se transformou em garagem para tratores, máquinas e implementos agrícolas, de meu irmão e dos filhos dele. Serve também como depósito de sementes, adubos, inseticidas e herbicidas.

Os carros de bois, o cargueiro, os cavalos de montaria e a carroça desapareceram. Foram substituídos por tratores, motos e automóveis.

O caminho da escola, tornou-se mais fácil. Um ônibus escolar leva e traz as crianças e jovens estudantes, de casa para a escola e da escola para casa.

Já não há mais revoadas de papagaios barulhentos ao final da tarde, porém os quero-queros moram ainda em seu tradicional habitat, no meio das pastagens e muitos dias me acordam, pela manhã, com sua algazarra. E, diariamente, pela manhã e ao anoitecer, um bando de garças brancas sobrevoa silenciosamente os arrozais.

A casa que foi de Gabriel e Marta, em foto de 2020.
A casa que foi de Gabriel e Marta, em foto de 2020.

O velho rancho atrás da casa foi derrubado e as antigas árvores que formavam o pomar ao lado deram lugar a uma lagoa de peixes.

* * *

Meu irmão José e a esposa Terezinha, que adquiriram o terreno que era de nossos pais, reservando-lhes o direito de usufruto, moram do outro lado da estrada, em frente. Próximo a eles, de um lado o filho Tarcísio com sua família e do outro lado, um pouco mais afastado, o filho Deonísio com a família.

Cada uma das famílias cultiva seu jardim com grande variedade de flores, um quintal com hortaliças como: repolho, alface, brócolis, vagem, cenoura, beterraba, couve, couve-flor, tomate e um pomar com árvores frutíferas, onde predominam as laranjeiras.

Casa de Tarcísio, de José e estábulo. Foto 2006
Casa de Tarcísio, de José e estábulo. Foto 2006
Casa de Marcelo, Tarcísio, José. Foto de 2020.
Casa de Marcelo, Tarcísio, José. Foto de 2020.

José e os filhos trabalham juntos e aumentaram a extensão do terreno, adquirindo a parte plana próxima ao rio, que pertencia ao vizinho Bernardo Feuser. A casa de Deonísio fica nesta parte.

Toda a área de vargem que fica entre a rodovia e o rio está transformada em arrozais que se emendam dos dois lados com os dos vizinhos.

A estrada da roça continua a mesma, bastante melhorada, porém, mesmo assim não permite a passagem de grandes máquinas para as colheitas.

A região próxima às residências deles e mais uma parte nos fundos do terreno é destinada a pastagens para os animais. Outra parte é cultivada com grandes plantações de milho para o trato dos animais e pequenas lavouras de batata doce, cará, batata inglesa, aipim, feijão, pipoca, melancia, amendoim, alho, cebola, abóboras, morangas e pepinos, para consumo doméstico. Como reserva florestal foram conservadas plantas nativas, na região mais distante, nos fundos do terreno e alguns pinheiros, no meio das pastagens.

Os arrozais dos fundos do terreno, que ajudamos a nivelar quando crianças são ainda cultivadas anualmente e significam hoje mínima parte da produção, mas são conservados. Para mantê-los foram construídas, um pouco acima delas, três represas para reserva de água. Estes tapumes servem também para criação de peixes, abastecimento dos bebedouros dos animais e fornecimento de água para uso no estábulo.

Revendo as mudanças ocorridas posteriormente a 2006, verificamos que, nos últimos anos, estas arrozeiras não foram mais cultivadas. Deram lugar a lagoas de peixes e pastagem para os animais.

* * *

O trabalho na agricultura é agora todo feito com máquinas, desde o preparo das terras até a colheita. A diversidade de implementos agrícolas, dos mais simples aos mais sofisticados, que são acoplados aos tratores, permite preparar a terra, semear, colher, debulhar os grãos e transportar os produtos da colheita com facilidade e rapidez. O uso da enxada restringiu-se ao trabalho nas pequenas lavouras, nos quintais e nos jardins.

Em todo o terreno cultivado é constante a aplicação de calcário, adubo químico, herbicidas, inseticidas e adubo orgânico proveniente de culturas próprias para adubação verde ou das esterqueiras do estábulo. São estas tecnologias que garantem a produção.

As atividades nas lavouras são constantes durante o ano todo, mas acentuam-se nas épocas de preparo do solo para semeadura e no tempo da colheita. A cada dia, são tratores que vão, tratores que vêm implementos que se colocam e que se trocam por outros, de acordo com o objetivo a que se destinam e o trabalho a ser feito.

As principais fontes de renda da família são a produção de arroz e de leite.

* * *

A partir do mês de agosto inicia-se a preparação dos arrozais para a próxima semeadura: picar a terra, enterrando os restos de palha da colheita anterior já em decomposição, colocar água, picar novamente e passar o nivelador.

Grandes canos trazem água de represas e quando esta não é suficiente, são acionadas potentes bombas elétricas que puxam água do rio.

O plantio é feito nos meses de setembro e outubro.

A semente é colocada de molho em um enorme buraco revestido por lona plástica impermeável, que o transforma num grande tanque. A cada quatro ou cinco dias uma remessa de sementes é ali colocada para ser semeada no momento em que os grãos estiverem iniciando a brotação.

A semeadura é feita mecanicamente com máquina própria para este fim. À mesma máquina é acoplado depois um equipamento para pulverização de defensivos e adubação.

Uma vez lançada a semente, vêm os cuidados com inseticidas, adubo e água, tudo a seu tempo certo.

Os arrozais que são, inicialmente, grandes extensões de terra cobertas de água, à medida que as sementes brotam começam a mudar a paisagem. As plantinhas vão crescendo e tudo se transforma num enorme manto verde que se torna dourado assim que o arroz vai madurando. A paisagem torna-se maravilhosa, com o brilho do sol sobre ela e a leve ondulação dos cachos maduros balançando ao vento.

Arrozais prontos para a colheita. Foto 2006
Arrozais prontos para a colheita. Foto 2006

A partir do mês de março do ano seguinte inicia-se a colheita. Uma enorme ceifadeira adentra nos arrozais. Por onde passa corta os pés de arroz, devolvendo à terra, imediatamente, as palhas vazias e recolhendo para seu interior os grãos.

De vez em quando, um trator com o “chupim” se aproxima da ceifadeira, que joga nele os grãos colhidos. Aquele trator transporta então o arroz até o caminhão estacionado próximo à rodovia.

Colheita de arroz. Foto 2006
Colheita de arroz. Foto 2006

Este procedimento se repete sucessivas vezes e, quando a colheita transcorre normalmente, em questão de quatro horas o caminhão está cheio e sai com a carga em direção a Pouso Redondo ou Rio do Sul, para descarregar nos depósitos da CRAVIL (Cooperativa Regional Agropecuária Vale do Itajaí). Outro caminhão encosta no lugar do primeiro e é enchido enquanto aquele leva a carga, descarrega e volta.

A ceifadeira inicia o trabalho pela manhã, assim que seca a umidade provocada pelo orvalho e estendendo-se noite adentro, até altas horas. Assim se passam alguns dias consecutivos.

Enquanto isto, ao longo dos longos dias, entre os homens que estão de folga, nos intervalos entre trabalho e espera para o transporte, passa o chimarrão, a água fresca e até alguma cerveja gelada.

Em casa as mulheres se dedicam ao preparo da alimentação para todas as pessoas envolvidas no processo da colheita. Servem o café da manhã e o da tarde, com pães, cucas, bolos, pão de queijo, bolinhos de boleira, rosquinhas, café e sucos. Para o almoço preparam cardápio variado a cada dia, com carnes, arroz, feijão, aipim, batata inglesa, batata doce, macarrão e saladas.

Para não parar as máquinas, as refeições são levadas ao local da colheita e os maquinistas se revezam, enquanto uns comem outros continuam o trabalho.

As crianças se divertem acompanhando toda a seqüência das atividades com a atenção voltada aos mínimos detalhes e aproveitam passar algum tempo em cima dos tratores.

No período posterior a 2006, foi introduzido novo sistema de plantio, sendo feita a semeadura, não mais na terra coberta de água, mas na terra seca e somente após a germinação da semente as arrozeiras são cobertas de água.

Terminada a colheita, a terra descansa. Neste período, algumas quadras eram aproveitadas para criação de peixes, e por alguns anos as arrozeiras, no tempo do descanso, também serviram para a criação de marrecos.

Marrecos nas arrozeiras. Foto 2008
Marrecos nas arrozeiras. Foto 2008

A plantação de milho é feita nos meses de setembro a janeiro. Destina-se à silagem para o gado. É feita a silagem verde e a silagem de grãos. Para o plantio são adquiridas sementes selecionadas, que são imunizadas com inseticidas antes de semear. A limpeza do terreno é feita com aplicação de herbicidas e o plantio se faz com semeadeira conduzida por trator.

A silagem verde é feita quando o milho está com as espigas formadas e que não tenham mais leite. Nos dias em que é feita a silagem reúnem-se para este trabalho todas as pessoas da família e mais alguns homens contratados para ajudar. O trabalho inicia preparando-se os tratores com os acessórios próprios.

Na roça, um primeiro trator, com a ensiladeira colhe as plantas inteiras de milho verde, pica e despeja dentro da carreta que tem engatado a ele. Assim que uma carreta fica cheia, é trocada por outra vazia e um segundo trator leva aquela até o silo, onde despeja o trato para armazenagem. Ali um trator menor é usado para descarga e compactação da silagem, a fim de expulsar todo o ar. Quando cheio o silo é coberto com enorme plástico preto e recoberto de terra.

Uma parte de milho é deixada para colher mais tarde, para fazer a silagem de grãos, quando as espigas se apresentam semi-maduras. Um trator levando a colheitadeira passa na roça, trabalhando em forma circular, de fora para dentro, apanha as espigas, debulha e joga fora a palha. O milho passa por um cano até a parte posterior, onde duas pessoas adaptam sacas para recolher os grãos e as trocam à medida que vão enchendo. Estas sacas são amarradas e jogadas para fora do equipamento. Assim que há suficiente para uma carga, são recolhidas na carreta e trazidas para o rancho.

No rancho, o milho é triturado formando uma quirela grossa. Esta quirela é molhada com água doce e amassada com os pés, até ficar muito bem socada. A armazenagem é feita dentro do mesmo rancho, em silos revestidos de lona plástica. Dali é retirada aos poucos, para ser tratada aos animais.

Fazer silagem, tanto a verde como a de grãos, é trabalho para uma semana inteira de cada vez, iniciando o dia muito cedo e estendendo-se noite adentro. Em compensação, esta reserva de trato para os animais dura por alguns meses e então o processo todo se repete.

Esta era a maneira como se fazia o processo de colheita do milho, até o tempo da primeira edição do presente livro, ou seja o ano de 2006. Assim como em todos os outros setores, a tecnologia avança rapidamente também no setor agrícola.

Melhoramentos e novas técnicas vão sendo adotadas constantemente e novos maquinários e equipamentos

substituem os anteriores, facilitando o trabalho

e diminuindo a necessidade de mão de obra humana.

Desta forma, num período de 14 anos, de 2006 a 2020, verificamos mudanças significativas que vieram facilitar o trabalho da colheita do milho.

A máquina acoplada ao trator para a colheita de milho, ao mesmo tempo que colhe, também debulha as espigas e armazena o milho a granel no seu interior, até um volume de aproximadamente 600 kg. Aí este milho a granel é colocado dentro de uma carreta, que vem acoplada a um trator e assim que a carga está completa esta carreta é substituída por outra para encher e a que está cheia é transportada para o local de armazenamento. Lá chegando os grãos são moídos imediatamente, sendo que neste processo há um caracol que leva o milho da carreta até o interior do triturador que está acoplado num outro trator. O triturador tem capacidade de moer em torno de 10.000 kg de milho por hora. Uma vez triturado, o milho é colocado no silo onde fica armazenado para consumo durante o ano todo.

Antes o triturador era elétrico e tinha capacidade de moer no máximo 2.000 kg por hora e todo o serviço era braçal, pois o milho era transportado dentro de sacas.

Na forma atual, em um dia, quatro pessoas trabalhando conseguem colher, transportar, moer e armazenar em torno de 30.000 kg de milho, enquanto que, anteriormente, dez pessoas envolvidas conseguiam um resultado em torno de 15.000 kg em um dia de trabalho. Além disso o serviço era bem mais pesado por ser todo manual.

* * *

Um rancho enorme ao lado da casa de José comporta as instalações próprias para a produção de leite, um grande resfriador, as ordenhadeiras, espaço para a ordenha, refeitório e dormitório das vacas e instalação para bezerros.

Vilmar tocando as vacas para o estábulo. Foto de 2006
Vilmar tocando as vacas para o estábulo. Foto de 2006

As vacas leiteiras eram anteriormente, na maioria, da raça holandesa (de cor preta e branca), sendo em número de 35 a 40 vacas ordenhadas diariamente.

Quanto ao plantel leiteiro atualmente há em torno de 60 a 65 vacas ordenhadas diariamente, sendo 60 por cento da raça Holandesa, 20 por cento da Jersey e 20 por cento da Montbeliarde. A raça Montbeliade, originária da França, foi introduzida através de inseminação artificial, buscando nesta raça produção leiteira com mais rusticidade com o clima e tem um valor mais agregado no leite quando comparado com a holandesa, pois o seu leite é mais rico em gordura e proteína. Sendo assim, principalmente na produção do queijo ele é mais valorizado.

As vacas leiteiras. Foto de 2020
As vacas leiteiras. Foto de 2020

Também aumentou o número de novilhas para reposição do plantel, sendo conservadas todas as fêmeas nascidas na propriedade. Desta forma, todo o ano entra uma renda extra na venda de vacas e também de algumas novilhas.

A genética de todas essas raças melhorou muito a cada ano, apurando-se mais a raça para um melhoramento genético e também com uma melhor dieta na alimentação. A média de produção leiteira está em torno de 22 a 25 litros por vaca ao dia, variando um pouco, conforme a época do ano. As holandesas e as montbeliarde chegam a produzir de 40 até 50 litros por dia, no pico de sua produção e as jersey vão de 28 a 32 litros por dia, no pico da produção.

A ordenha é feita duas vezes por dia, pela manhã e à noite. As vacas são colocadas na sala de ordenha, 14 por vez, sete em cada corredor. Ali é feita a higienização das tetas, com água corrente e, em seguida, são adaptadas as teteiras. Terminada a ordenha das que estão no primeiro corredor, é feita aplicação de produto preventivo contra mastite e depois abre-se um portão por onde elas seguem para o refeitório, enquanto se ordenham as do outro corredor. Este procedimento repete-se sucessivamente, até terminar.

Cada vaca ao chegar ao refeitório, assim que alcança o trato, fica automaticamente presa por uma tranca em volta do pescoço. As vacas leiteiras recebem diariamente silagem verde e silagem de grãos complementadas por proteínas e minerais, garantindo assim uma boa produção de leite.

Da ordenhadeira o leite segue por canos inoxidáveis, até o resfriador. Dali é transportado num caminhão tanque, até as dependências da empresa compradora que faz o processo de industrialização e posterior comercialização.

Concluído o trabalho de ordenha é feita a limpeza dos equipamentos, utilizando-se água quente que vem encanada a partir do fogão a lenha da residência de José.

As vacas passam a noite em dormitório especialmente preparado na estala e durante o dia são soltas em pastagens.

O pasto é todo dividido em piquetes separados por cerca elétrica e em cada um há bebedouros abastecidos por água encanada que vem dos reservatórios feitos nos fundos do terreno. A cada dia as vacas são levadas para pastar em um destes piquetes onde são continuamente semeadas culturas diferentes de acordo com cada época do ano.

A procriação dos animais é feita através de inseminação artificial. Os bezerros (machos) são, em sua maioria, descartados logo após o nascimento. As bezerras e os poucos bezerros que são conservados, são tratados em estalas próprias, amochados, e depois de crescidos são levados à pastagem dos fundos do terreno. De lá voltam as novilhas quando estão próximas a dar cria, e os bois, um ou dois por vez, para engorda em confinamento, para consumo da família.

Para abate, a rês é levada ao matadouro, onde a carne é inspecionada pela vigilância sanitária. É depois cortada, embalada em pacotes plásticos, identificada e conservada em freezer.

A criação de porcos extinguiu-se. Conservam apenas um suíno por vez, em chiqueiro, na engorda.

A criação de galinhas é conservada para produção de ovos e para consumo, porém, já não se vêem mais chocas com pintinhos, estes são adquiridos nas casas de comércio de produtos agropecuários.

O esterco produzido nas estalas é recolhido, diariamente, para um depósito construído para este fim. A cada três ou quatro semanas é aspirado num grande tambor e espalhado no terreno para adubação.

* * *

Desta forma se processa o trabalho, neste mesmo terreno onde meus pais chegaram em 1943, abriram uma clareira no meio do mato para construir sua casa e aos poucos foram derrubando os matagais para fazer suas plantações e retirar da terra o sustento para a família.

Cada pedaço deste chão tem sua história de transformação, seu tempo de cultivo e descanso, sua variedade de produção. E, passado o primeiro tempo de exploração da terra, apesar dos cuidados que meus pais sempre tiveram quanto à rotatividade das culturas; o tempo de descanso de cada pedaço de terra, deixando crescer a capoeira, para mais tarde roçar e plantar novamente; o carinho com que procuraram exterminar os “insos” como o capim burro, o capim doce, o caruru e outros; esta terra não estaria mais produzindo sem o investimento em tecnologia.

Ao analisarmos as mudanças ocorridas com o passar do tempo podemos perceber que foi longo o período em que se trabalhou somente com instrumentos de força braçal: machado, foice, pá e enxada. Vieram as pequenas máquinas manuais de: plantar grãos, fazer quirela, debulhar milho, cortar trato, tirar água do poço e desnatar leite. Seguiram-se os instrumentos de tração animal: arado e capinadeira. O primeiro micro trator, o “Tobatta” foi adquirido pelo pai, em sociedade com o filho José, através de financiamento bancário, por volta de 1975 e em seguida adquiriram a trilhadeira e a máquina trituradora de grãos “Nogueira”.

Quando chegou a Rio do Campo a ACARESC, no início da década 1970, os agricultores passaram a receber orientações de um Engenheiro Agrônomo, que coletou amostras de terra para análise, passando a incentivar e orientar a aplicação de calcário e adubos, de acordo com a necessidade de cada parte do terreno. Em pouco tempo a aplicação de calcário e adubos como forma de “investimento”, tornou-se uma prática constante e necessária para a terra continuar produzindo.

* * *

Como fonte de renda para a família predominou, inicialmente, a criação de porcos e o cultivo do milho e da mandioca. Seguiu-se o plantio de fumo, soja e feijão. Em todo o tempo, paralelas às lavouras destinadas à comercialização, permaneceram as culturas de rotina, necessárias para o consumo próprio e dos animais e também em pequenas quantidades para vender.

O cultivo de arroz irrigado, iniciado no final da década de 50, com as primeiras arrozeiras feitas no terreno dos fundos, foi aumentando gradativamente, primeiro naquela região e depois na vargem, nas proximidades do rio, ainda com serviço totalmente braçal, uma parte feita pela própria família e outra pela família de José de Brito, contratada para este fim.

Mais tarde o restante do terreno disponível na vargem, entre a estrada e o rio, foi transformado em arrozais, serviço então feito com máquinas, ficando fora apenas pequena área com a morada de meus pais, o quintal, a chácara e o rancho.

Assim veio a tornar-se a produção de arroz a principal fonte de renda dos meus pais em seus últimos tempos de trabalho na agricultura e também do meu irmão com sua família.

A produção de leite também foi evoluindo aos poucos a partir da criação própria de gado leiteiro, chegando a prestar pequena contribuição na renda da família, com a venda de leite, manteiga e nata, por muitos anos. Meu irmão José, por sua vez, adquiriu algumas vacas Jersey e Holandesas e a partir destas foi aumentando gradativamente a produção, tanto em quantidade como em qualidade, adotando tecnologias modernas nos meios de reprodução, nas instalações e equipamentos e na alimentação dos animais, chegando a uma produção significativa de leite, a qual ocupa hoje o segundo lugar como fonte de renda da família dele.

A partir da chegada da energia elétrica, o que aconteceu somente no ano de 1974, grandes benefícios vieram com ela. Além da iluminação foram sendo adquiridos, aos poucos, os eletrodomésticos como geladeira, freezer, bomba de tirar água do poço, televisão e mais tarde máquina de lavar roupa, forno elétrico, batedeira de bolo, liquidificador, espremedor de frutas, ventilador e outros. Aos poucos estendeu-se à utilização nos ranchos, para iluminação, máquinas de picar trato para os animais, máquinas de cortar grama e uso nos resfriadores de leite, na ordenhadeira, nos motores que puxam água do rio e mais outras utilidades.

Com o passar do tempo o consumo de energia elétrica passou a significar um valor elevado nas despesas, principalmente com a demanda proveniente da produção do leite. Assim sendo, no ano de 2019, meu sobrinho Tarcísio optou pela implantação de um sistema de geração de energia própria. É um sistema pioneiro na região. Veja reportagem sobre o assunto em:

Esta energia destina-se para o resfriador de leite, a ordenhadeira, o aquecimento da água para a higienização da ordenhadeira e os ventiladores da granja leiteira instalados no ambiente onde é feita a ordenha e onde fica a parte da alimentação das vacas. Além disso fornece a energia para todas as instalações existentes no terreno, a granja leiteira, o galpão onde são guardados os tratores e implementos em geral e também para as residências das famílias de José, Tarcísio e Marcelo.

* * *

Quando, na década de 70, se ouvia falar que existiam regiões em outros Estados do Brasil onde se faziam as lavouras de grãos, com tratores e máquinas, desde o preparo do terreno até a colheita e que os produtos eram colhidos, debulhados, colocados em caminhões e imediatamente transportados para os depósitos das indústrias de beneficiamento, isto, para os agricultores daqui, parecia inacreditável. No entanto, em questão de uns 20 anos, este procedimento se tornou realidade, também em Rio do Campo, especialmente com a produção de arroz.

Esta transformação se deu rapidamente a partir da aquisição de maquinários agrícolas, numa verdadeira explosão tecnológica no meio rural. Financiamentos bancários de alto montante impulsionaram os agricultores a adquirir tratores, máquinas e implementos, aumentando assim em grande escala a produção, o que, por sua vez, levou a encorajar a novos financiamentos e consequentemente, cada vez maior e melhor produção.

O que é importante destacar é que após um longo período de iniciação do setor agrícola através do trabalho manual entregue à sorte das condições climáticas e dependendo unicamente da fertilidade do solo, houve um segundo período de evolução e mudanças lentas e um terceiro momento com transformações muito rápidas, a partir da década de 90.

* * *

Longos anos de trabalho, passando por todas as situações e experiências acima citadas, fizeram com que meus pais e os descendentes que permaneceram nessa terra, tirassem dela o sustento de toda a família.

Esse chão, por muitos anos regado com o suor de Gabriel e Marta e dos filhos que, desde pequenos, os acompanhavam na lida diária, permanece na família, representada por José e Terezinha, seus filhos, netos e já um bisneto.

Esse chão é para nós uma terra abençoada, onde nascemos e crescemos, o ponto de referência onde gostamos de nos reunir, mesmo sem a presença física dos nossos pais, porque ali tudo nos remete a eles.

A hospitalidade dos que ali residem é um convite permanente e nos dá a certeza de que lá somos sempre bem vindos.

Sumário