Capítulo 19 de 41
O período da minha escola primária e do colégio
Mais um Natal se passara e agora faltavam menos de dois meses para eu iniciar a caminhada escolar. Caminhada sim, pois a distância de casa até a escola era de mais de quatro quilômetros. A estrada era mais longa do que é agora, porque acompanhava, em grande parte, a margem do rio e a escola localizava-se no mesmo terreno da igreja católica, mais precisamente, no mesmo lugar onde esta foi construída.
Eu já havia completado sete anos em agosto. Minha irmã mais velha, a Maria, terminara a quarta série que era o maior grau de estudo existente em Rio do Campo. Para o ano de 1956, seríamos o José e eu a irmos à escola, ele pela manhã na terceira série e eu à tarde, na primeira.
Vestida com blusa branca de gola esporte e saia azul marinho toda pregueada, uniforme que havia sido da Maria e que a mãe adaptara ao meu tamanho, lá fui eu, toda faceira para meu primeiro dia de aula. Numa bolsa de pano levava um caderno, um lápis e a bolsinha do lanche, também de pano.
As professoras eram as Irmãs Catequistas Franciscanas, que haviam assumido esta função em Rio do Campo, desde 1942. Elas usavam hábito preto, comprido até os pés, com colarinho branco e um véu também preto, que lhes cobria a cabeça deixando de fora apenas o rosto.
A escola denominava-se “Escolas Reunidas Professora Flóscula de Queirós Santos”. Minha primeira professora foi a Irmã Maria Venturi que, com seu jeito amável, conquistou minha confiança, apesar da timidez característica de criança principiante na escola, agravada pelo fato de eu falar e compreender muito pouco da língua portuguesa, por estar habituada a falar o idioma alemão em casa.
No caminho de ida para a escola e volta para casa íamos em grupos, todas as crianças que moravam na vizinhança. Ao chegar o inverno, com os dias mais curtos, começava a escurecer antes de chegarmos em casa e nos apavorávamos ao passar por um banhado que havia um pouco antes da casa do tio Lino, onde os sapos coaxavam, fazendo os mais diferentes sons, alguns semelhantes ao chorar de uma criança.
Por esse motivo, depois da metade do ano eu passei a frequentar a escola pela manhã, junto com a classe dos repetentes da 1a série e tive como professora a Irmã Erna Maria Tridapalli.
Além da leitura, escrita, aritmética e conhecimentos gerais, tínhamos aula de religião todos os dias. Decorávamos perguntas e respostas do catecismo. As crianças do primeiro ano de aula faziam também a Primeira Comunhão.
Como eu tinha passado para o turno da manhã, ficava na escola depois da aula, esperando o horário da tarde, para participar da doutrina e dos ensaios para a Primeira Comunhão.
Naquele horário vinha também para a doutrina o Raimundo Steinbach que ainda não estava frequentando a escola. Ele ia com os alunos da tarde, ficava para a doutrina e aí nós dois voltávamos juntos para casa.
Aconteceu que ele machucou o pé e por alguns dias quase não podia andar. Num dia daqueles, o Mauro, irmão dele, foi buscá-lo e levou a égua Baia para ele montar. Para não me deixar sozinha, convidou-me para montar junto com o Raimundo. Encostou a Baia bem perto de um barranco, mas quando fui montar, escorreguei e caí em baixo dela. Sorte que era mansa e ficou ali quietinha. Eu tentei mais uma vez e consegui. Aí viemos montados, o Mauro em um animal e puxando o outro no qual vínhamos o Raimundo e eu, agarrados para não cair.
Minha Primeira Comunhão foi no dia 02 de dezembro de 1956.
Para que meus cabelos ficassem cacheados, na véspera, a mãe fez muitas trancinhas e as amarrou com tiras de palha de milho. Só as soltei na manhã seguinte. Vesti meu vestido branco de fustão, feito no modelo “três saias” e coloquei a boina branca na cabeça. Por baixo dela ficaram aparecendo os cachinhos de meus cabelos. Não tomei café pela manhã. Para comungar era preciso estar em jejum.
Entramos na igreja (que era o salão adaptado) em fila e ocupamos os primeiros bancos. Na hora de receber a comunhão fomos conduzidos por “anjinhos” (crianças vestidas de anjo) que nos acompanharam até o altar. Era tudo muito bem ensaiado e foi para nós um dia de muita felicidade.
Depois da missa recebemos o café da manhã (café com cuca), que foi doado por Vicente e Rosa Destéfani. As pessoas diziam que este casal doava, todos os anos, o café para as crianças da primeira comunhão porque haviam feito uma promessa.
Voltando para casa, pude ficar aquele dia todo usando o vestido branco. Esta roupa passei a usar para a missa dos “Cruzadinhos”, no primeiro domingo de cada mês, que era o dia em que comungávamos. Para isto, na sexta-feira que o antecedia o padre atendia à confissão das crianças da escola. O segundo domingo do mês era das “Filhas de Maria” o terceiro dos “Marianos” e o quarto do “Apostolado da Oração”.
No primeiro natal depois que tinha feito a primeira comunhão também pude ir à missa do galo. Fomos a pé, o pai e os três filhos mais velhos, a Maria, o José e eu. Naquela noite havia luar e havia algumas poças de água na estrada. Num certo momento eu pisei numa poça de água, que era branca como se fosse chão seco. Caí e deixei cair na água suja a minha boina nova, que iria usar junto com o vestido branco, nos domingos da missa dos cruzadinhos. Aquela mancha nunca saiu da minha boina e tive que usá-la assim por todos os anos em que fui cruzadinha.
* * *
No ano seguinte (1957) frequentei a segunda série e minha professora foi a Irmã Carmelina Maria Zambonin. Durante este ano a escola foi desmanchada e foram construídas salas novas, no local onde se encontram agora as salas de catequese da paróquia. Enquanto a construção estava em andamento, tínhamos aula embaixo do salão da igreja, em salas improvisadas.
Naquele ano chegou a Rio do Campo a família do seu Lico Créis (Maurílio Rauen), que veio da serra. Três alunos novos passaram a frequentar nossa escola: Antônio e Maria Aroni na segunda série e Emídia na primeira. Tornei-me muito amiga deles e admirava a maneira como falavam, com sotaque bem diferente do nosso. O Antônio tinha mais idade do que os outros alunos da classe, era alto e usava calças a meia canela. Eu também fazia parte dos alunos maiores, por isso ocupávamos as últimas carteiras da sala de aula.
Como tínhamos muita curiosidade de saber se as freiras tinham cabelos, uma vez que usavam um véu preso à cabeça, um dia o Antônio e eu combinamos uma forma de descobrir como eram os cabelos de nossa professora. Eu a chamaria para ver uma tarefa em meu caderno, e, aproveitando o momento em que ela se abaixasse, o Antônio, por trás, levantaria de leve o véu dela. O plano parecia perfeito, mas a irmã percebeu que alguém tentava levantar-lhe o véu. Esta aventura quase nos rendeu uma expulsão da escola, pela falta de educação e, além disso, continuamos sem satisfazer nossa curiosidade.
Para o ano seguinte a construção das novas salas de aula ficou pronta e nelas frequentei a terceira e quarta séries, tendo como professora a Irmã Regina Lunelli.

Valéria assinalada com um círculo.
Nosso caminho para a escola tornou-se mais curto assim que foi aberta uma estrada nova a partir da casa do tio Lino para o centro. Nós começamos a passar por ela para ir à escola, enquanto era só um picadão. Havia uma grota profunda no local que fica em frente à atual residência de Fausto Moratelli. Ali passávamos por cima de uma pinguela (tronco de árvore atravessado de um lado a outro).
Houve um tempo em que recebemos merenda escolar. Era leite em pó dissolvido em água e distribuído num caneco. Tomávamos aquele leite junto com o lanche que levávamos de casa. Nosso lanche era, normalmente, duas fatias de pão de milho, com coalhada, nata, ou banha com açúcar. O lanche preferido era o bolinho de boleira, mas eram poucas as vezes que a mãe fazia.
Na escola havia o hábito de trocar lanche entre os amiguinhos. Algumas crianças levavam pão de trigo e isto significava, para nós, que eram ricas. Ficávamos muito felizes quando conseguíamos trocar um pedaço de nosso pão por um pedaço de pão de trigo.
Um dia eu tinha levado bolinhos de boleira e uma amiguinha insistiu muito para que eu desse um “coração” para ela e então no dia seguinte ela me traria um figo. Eu não conhecia esta fruta e ela garantiu ser muito gostosa. Recebi o figo no dia seguinte, mas não consegui comer e fiquei com vergonha de devolver. Então fui disfarçadamente até a escadaria do salão da igreja e joguei longe, para o meio do capim, a fim de que ela não percebesse.
As crianças da escola ajudavam sempre nas roças das irmãs, na plantação e capinação de aipim e milho. Elas também tinham animais para tratar. Em dia combinado, levávamos de casa nossa enxada e trabalhávamos o dia inteiro, se fosse preciso. Era para nós como se fosse um dia de piquenique.
Nossos deveres de casa eram feitos à noite, depois da ceia. Sentávamos ao redor da mesa e com a luz de uma lamparina de querosene, estudávamos a lição para o dia seguinte. O pai apontava nossos lápis com o canivete. Fazia uma ponta muito boa e bonita e tínhamos o máximo de cuidado para não quebrá-la, porque só tínhamos um lápis e não existiam apontadores.
Quando recebíamos os boletins e no final do ano havia prêmios para os primeiros colocados de cada turma: um santinho, um lápis, um pirulito, um impresso com orações ilustradas.
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No ano seguinte à minha conclusão do quarto ano, consegui convencer o pai e a mãe a me deixarem continuar os estudos no colégio das Irmãs Catequistas Franciscanas. Eu pretendia me tornar professora, como as irmãs que eu conhecia. Já vinha insistindo nisto desde o ano anterior. Quando enfim consegui a permissão para ir, ficou decidido que eu voltaria à escola, a partir do segundo semestre, para não esquecer o que tinha aprendido e me preparar melhor para o exame de admissão ao curso ginasial, que deveria fazer assim que chegasse ao colégio.
Como não havia quinto ano em Rio do Campo, passei a frequentar novamente o quarto ano, como aluna “encostada”, sem constar na matrícula e na chamada e sem direito a receber boletim. O meu uniforme do ano anterior, já passara para a Salomé e eu recebi permissão de ir sem uniforme. Naquele ano, no dia Sete de Setembro, desfilei à frente do pelotão da escola, carregando a Bandeira do Brasil, usando meu vestido branco de cruzadinha. Nosso desfile era feito ao toque de um único tambor.
* * *
Quando já se aproximava a data de minha partida para o colégio, nós fomos a Taiozinho, num domingo, visitar a família do tio Antônio e também minha madrinha de crisma. Tinha chovido e a estrada estava bastante ruim. O pai guiava os cavalos com cuidado, mas mesmo assim, aconteceu um acidente. A certa altura havia um buraco muito fundo na estrada e um dos cavalos, ao pisar nele, deu um pulo para sair e com isto a roda dianteira da carroça caiu dentro do buraco.
Com o soco, a mãe, que sentava no banco da frente, com o Carlos no colo, caiu para o meio dos cavalos. Quando ela ia caindo o pai tentou segurá-la pelo vestido, mas não conseguiu, porque a saia descosturou na cintura. Com isto ele conseguiu amenizar a queda. Os cavalos eram mansos e o pai, com cuidado, foi mantendo-os calmos, até conseguir desatrelar um, para poder ajudar a mãe a levantar-se. O bebê que estava no colo machucou um pouco a perninha e a mãe ficou dolorida, mas nada de mais grave aconteceu.
Aí ficaram no dilema entre continuar o caminho ou voltar. Optaram por continuar. O acidente já tinha acontecido mesmo, e chegando na casa da tia, ela poderia ajudar a mãe a costurar o vestido e fazer uma compressa na perninha da criança. Lá chegando, foram tomadas as providências necessárias e logo tudo estava bem.
À tarde fomos até a casa de minha madrinha de crisma, Maria Dubiela, que era conhecida como Micha. Ela foi convidada para ser minha madrinha, porque era sobrinha de Angelino Tavares que tinha sido nosso vizinho na época em que eu nasci e ela morava com eles. Porém, esta família logo saiu de Rio do Campo e eu nem mesmo a conhecia. Depois daquela ocasião, também nunca mais a vi.
Outra providência tomada antes de minha partida para o colégio foi tirar um retrato da família para ficar de recordação. A mãe estava angustiada com o fato de uma filha sair de casa e ficava a imaginar que, talvez, nunca mais a família toda se reuniria. Num domingo daqueles, após a missa, fomos à casa do Zeca Sapateiro (que era também o fotógrafo). Lá compramos um par de congas azul marinho e um par de sandálias franciscanas, que faziam parte de meu enxoval e ficou combinado que ele viria à nossa casa, após o almoço, para tirar uma fotografia da família.
Vestimos nossas melhores roupas e nos preparamos para a foto. O fotógrafo ajudou a nos posicionar em frente à nossa casa. Em seguida abriu o tripé, colocou o pano preto sobre ele, enfiou a cabeça embaixo daquele pano preto, chamou nossa atenção para olharmos o passarinho que iria aparecer. Uma luzinha piscou. Estava tirada a fotografia. Agora era só esperar ele encher o filme e mandar para revelar. Foram encomendadas uma para cada filho. Eu recebi a minha para levar comigo ao colégio, para olhar quando tivesse saudades.

A mãe costurou as roupas do meu enxoval e eu bordei, em cada peça, as iniciais do meu nome.
Minha mala estava pronta e eu disposta a seguir para um mundo completamente desconhecido. Parti para o colégio no dia 02 de fevereiro de 1961.
Deixei para trás o aconchego da família, os amigos da infância, a terra que me viu nascer, minha enxada e meu chapéu.
Nos anos seguintes nossa família continuou aumentando e em 1964 foi feita uma foto das crianças que nasceram depois: Anísio Marcos, Beatriz e Bernadete.

Em 1966 nasceu Maristella e no final daquele ano, quando eu e a Salomé (que também tinha ido ao colégio) estávamos de férias, mais uma vez o seu Zeca Sapateiro veio até nossa casa tirar uma fotografia da família, agora bem maior.
A Maria já estava casada e fizeram parte desta foto também o Alberto (marido dela) e Jorge Henrique (o primeiro filho deles).

Quando eu saí de casa e fui para o colégio, estudei por quatro anos em Laurentino, onde fiz o curso ginasial, depois fui a Rodeio para o postulantado e noviciado, mas desisti antes da profissão religiosa. Como eu já tinha iniciado o Curso do Magistério, continuei os estudos por mais dois anos em Taió, depois iniciei minha carreira como professora.