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Valéria Kühlkamp

Capítulo 15 de 41

Os finais de semana

O sábado era para nós um dia de muito trabalho. Geralmente, até o meio-dia, as atividades eram normais na lavoura, em continuidade ao que estava sendo feito durante a semana. À tarde faziam-se os preparativos para o domingo: limpar a casa; lavar o assoalho da cozinha com água, sabão e vassoura; esfregar os talheres com cinza; varrer os ranchos e o terreiro; matar um frango; buscar trato para os animais (para dois dias); serrar e rachar lenha para a semana; pilar arroz; descascar batatas e cozinhar couve para o almoço de domingo.

A lenha tinha de ser cortada em toletes de 25 a 30 centímetros e depois rachada com o machado. Para serrar a lenha colocava-se o pau a ser cortado em cima de um cavalete ficando uma pessoa de cada lado, puxando alternadamente a serra em sua própria direção. Uma criança ficava sentada em cima do pau a ser cortado, para segurar. Quando não preparávamos lenha suficiente no sábado, era preciso preparar mais, durante a semana. Às vezes, em noites de luar, fazíamos isto depois de ter tratado os animais e tirado o leite, enquanto a mãe entrava em casa para arrumar a ceia e o pai tomava o chimarrão.

O arroz precisava ser socado no pilão para descascar e este era para nós um dos serviços mais difíceis. Quando a mãe socava, fazia-o com força e os grãos ficavam bem brancos. Quando nós o fazíamos a casca não saía completamente e o arroz ficava escuro. Além disto as galinhas rodeavam o pilão, tentando comer os grãos e tínhamos que ter cuidado para não bater a mão de pilão na cabeça delas.

Houve um tempo em que o pai participava do coral da igreja e então, aos sábados à tarde, encilhava o cavalo e ia para o ensaio. Quando chovia ele vestia a enorme capa preta que o cobria todo e ficava de fora somente a cabeça (que ele protegia com um chapéu de feltro) e as mãos que seguravam as rédeas do animal e o chicote.

Nas tardes de verão, aos sábados, íamos ao rio para tomar banho. Isto não significava apenas um divertimento, mas levávamos escova e sabão para nos esfregar e a roupa limpa para vestir depois. Quando não se ia ao rio tomar banho, colocavam-se grandes panelas cheias de água a esquentar no fogão, para encher o tanque que servia de banheira para a família toda. Tomávamos banho, então, começando pelos menores, todos na mesma água, apenas acrescentando nos intervalos de um e outro, mais uma panela de água quente.

* * *

O domingo foi sempre guardado como um dia especial, não se trabalhava, a não ser o essencialmente necessário. De toda a minha infância, lembro apenas de um domingo em que se trabalhou, isto porque o tempo mostrou grande probabilidade de geada para o dia seguinte e foi preciso cortar as ramas de aipim para guardar, caso contrário a geada mataria tudo.

Participar da missa aos domingos era dever sagrado. Bem cedo, após tratar os animais e tirar o leite, os cavalos eram atrelados à carroça. Tomávamos o café da manhã e em seguida vestíamos a “roupa de missa” e íamos para a igreja.

O padre rezava em latim. Só lia em português o evangelho. Fazia a homilia, geralmente com palavras duras, amedrontando sobre os castigos de Deus.

Depois da missa era hora do encontro entre parentes e amigos. Os adultos conversavam e as crianças brincavam. Estes momentos compensavam uma semana inteira de trabalho árduo. Havia muita falação, risos e gargalhadas. O pai ia, com os outros homens, ao botequim da igreja tomar uma pinga ou um copo de vinho de missa e trazia uma balinha de coco queimado para cada um de nós. Até hoje a bala de coco queimado, para mim, tem um sabor de infância.

O almoço dos domingos era sempre especial com sopa de galinha, galinha ensopada, arroz e ‘’gemüse’’. O gemüse é um prato típico dos descendentes de alemães, feito com batata inglesa, couve, costelas de porco e um pedaço de toucinho, tudo cozido na mesma panela. Deixa-se cozinhar até a água acabar e então retira-se a carne e junta-se cebola frita amassando bem até formar um purê. Era sempre preparado antes da missa e para não esfriar, a panela era enrolada em uma toalha e colocada numa cama, no meio da coberta de penas. Assim se conservava quente até ao meio-dia.

Muitos domingos, à tarde, íamos até a igreja, para participar da doutrina. Numa dessas vezes, lembro que encontramos o padre Eduardo que vinha a cavalo, com o chicote na mão. Fomos andando bem no lado da estrada, mas mesmo assim ele nos acertou umas chicotadas. Ele sempre fazia isto com as crianças que encontrava pelo caminho. Para a doutrina dos domingos as Irmãs Catequistas dividiam as crianças em duas turmas: os que ainda não iam à escola em uma sala e os maiores em outra. Aprendíamos as histórias da Bíblia. Depois da doutrina, tínhamos uma hora de recreação com brincadeiras de roda para as meninas e jogos com bola para os meninos.

Outras vezes, nos domingos de verão, saíamos após o almoço, pelos caminhos da roça, com nossos ‘’coadores’’, para pegar borboletas, as “azulinhas”, que saíam do meio do taquaral quando havia sol e voavam no meio do caminho e das picadas. Voltando para casa conferíamos a quantidade que cada um conseguira pegar e as guardávamos numa caixinha para serem vendidas. Os compradores costumavam passar de casa em casa. Às vezes, quando o pai ia a Taió, as levava para vender lá.

Quando não saíamos de casa à tarde, brincávamos no pasto dos porcos, que tinha uma grama bonita. Com pedaços de paus fazíamos cercados, com divisões e porteiras. Então recolhíamos as cepas dos pés de aipim, que haviam sido jogadas para os porcos, fazíamos delas nossos cabritos e os levávamos para dentro e para fora dos cercados, para dormir ou pastar. Naquele pasto havia uma enorme árvore de Tarumã, onde podíamos brincar na sombra e quando a fruta estava madura, colhíamos e comíamos, voltando para casa com a boca e as mãos roxas.

Brincávamos também no pé de Tripa de Galinha que ficava próximo à estrada, ao lado da entrada da nossa casa. Era uma árvore grande, com os galhos bem abertos. Nela podíamos subir e descer com facilidade e apanhar os frutos para comer.

Outro divertimento era escorregar nos morros em “canoas” de coqueiros.

Muitas vezes nos ocupávamos fazendo “pelotas” para os meninos usarem nas “fundas”, para caçar passarinhos. Era só pegar um pouco de barro mole, enrolar bem nas mãos e colocar para secar no sol.

Jogar peteca também fazia parte de nossas brincadeiras. Fazíamos as petecas com palha de milho e nelas colocávamos penas do rabo dos galos que a mãe matava.

Se havia crianças da vizinhança para brincar conosco, brincávamos de roda, as brincadeiras de ovo choco, o gato e o rato, bate que bate na casinha do beija-flor, roda cotia, ciranda cirandinha, Terezinha de Jesus e outras mais.

Os colegas de brinquedo eram também os do caminho da escola. Em meu tempo eram: Lúcia, Jaime e Osmar filhos de José e Olívia Hillesheim; Rainolda, Nilta, Juca e Lúcia filhos de Lindolfo e Matilde Schörner; Laurentino, Maria, Verônica e Chico filhos de Bernardo Feuser; Vitória, Raimundo, Orlando, Ivone e Maria filhos de Augusto e Clementina Steinbach; Angelina, Bertolino, Leocádia, Benício, Amélia e Antônio filhos dos tios Lino e Elizabeth Kühlkamp.

Houve um tempo em que nossa diversão maior foi o futebol. Jogávamos no pasto do seu Augusto ou do seu Bernardo, onde havia espaço melhor do que no nosso. Fincávamos as traves no chão e aí corríamos atrás da bola, meninos e meninas, tentando fazer gol.

Quando íamos até a casa do tio Lino brincávamos à beira de um riozinho muito bonito e cheio de pedras. O tio Lino e a tia Elizabeth eram meus padrinhos. Todos os anos no Natal eu ganhava deles um pacote com docinhos e balas e na Páscoa, casquinhas de ovos, coloridas e cheias de amendoim. Sentia-me muito feliz com aqueles presentes.

Todos os domingos havia o café da tarde, que era servido para toda a família e para os visitantes, com rosca de polvilho e açúcar no café (o que não era usado durante a semana). Quando nós visitávamos vizinhos e parentes, também participávamos do café da tarde na casa deles.

Bem mais adiante, quando os filhos cresceram o pai construiu à frente de casa uma cancha de bocha. Jogar bocha tornou-se o divertimento principal para adultos e jovens da vizinhança durante diversos anos, até que a estrada mudou de lugar aqui em frente à nossa casa, em função da construção do asfalto e aquela cancha foi desmanchada. Veio então, como principal divertimento, o jogo de cartas, a canastra. Este jogo já era usado há mais tempo, pelos homens, quando os vizinhos ou tios se visitavam. O jogo da canastra tornou-se uma rotina na família. * * * Muitas vezes, aos domingos, fazíamos passeios de carroça, a família toda, até Rio Waldrich, Rio Wildi, Taiozinho e Serrinha, na casa dos tios. Em Rio Waldrich visitávamos as famílias do tio Gregório Kühlkamp e do tio Fernando Haverroth. Na casa destes tios, no tempo de verão, havia peras e pêssegos. Sempre comíamos das frutas que eles tinham e trazíamos para casa, porque em Rio do Campo ainda não tínhamos. Lá as árvores frutíferas haviam sido plantadas antes de meus pais virem morar aqui e, assim sendo, as nossas ainda não estavam carregando. Mais tarde tivemos épocas de muita fartura, principalmente de peras. Então, além de comê-las cruas, fazíamos cada noite uma panelada de sopa de pera para comer no dia seguinte, depois do almoço. As famílias dos tios Rodolfo e Felipe Haverroth também moraram por muitos anos em Rio Waldrich, mas mudaram para Rio do Campo. Com estes nos encontrávamos todos os domingos na igreja e às vezes os visitávamos depois da missa. Tio Rodolfo tinha uma casa de comércio, perto da igreja de Rio do Campo e tio Felipe morava na Serrinha. Em Rio Wildi moravam as famílias dos tios Germano Dieckmann e Paulo Kühlkamp. Lá havia laranjas, tangerinas, limas e limões, frutas que também não tínhamos e eles repartiam conosco. Aqui geava muito forte no inverno e estas plantas não sobreviviam. Com o tempo algumas laranjeiras conseguiram vingar, num pedaço de terreno lá no morro, onde o pai deixou a capoeira crescer em volta. Demorou ainda alguns anos até conseguirmos cultivar também perto de casa. Íamos também com certa freqüência a Taiozinho onde moravam as famílias dos tios Antônio Haverroth, Osvaldo Lückmann e João Berlanda.

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