Capítulo 24 de 41
Homenagem a meu pai

Homem simples, trabalhador, pés descalços, roupa remendada, chapéu surrado pelo tempo, enxada na mão, camisa molhada, suor escorrendo pelo corpo, esta é a imagem que faço de meu pai. Foi assim que o vi durante toda a minha infância.
Acordava cedo, tratava os animais, tomava algumas cuiadas de chimarrão e o café da manhã. Com a ferramenta às costas seguia o caminho da roça. Cada dia o esperava com uma jornada árdua, trabalho pesado, geada grossa, ventos, sol quente ou pancadas de chuva. Preparar a terra, plantar, capinar, colher, esta era sua missão.
Num pequeno intervalo que fazia para descansar, tirava do bolso o canivete, uma palha de milho, um pedaço de fumo e o isqueiro. Acocorado ou sentado em cima do cabo da enxada, preparava aquela palha dobrando-a cuidadosamente e cortando-a nas extremidades. Segurava-a entre os lábios enquanto cortava uma porção de fumo e esfregava entre as mãos. Preparava o cigarro, acendia e dava uma pitada. Em seguida o apagava e guardava em cima da orelha direita. Estava pronto para continuar o trabalho. Orientando-se pela posição do sol voltava para casa ao meio dia.
Após o almoço tirava um pequeno cochilo, deitado sobre um banco de tábua, usando o braço feito travesseiro. Em seguida, afiava as ferramentas e voltava à lavoura retornando para casa ao escurecer. Tratava os animais, entrava em casa e acendia o fogo no fogão a lenha. A primeira água a esquentar era para o chimarrão. Sentava-se ao lado do fogão, a chaleira semi-destampada, cuia na mão, bebê no colo, esta rotina diária constituía quase um ritual.
Homem de fé, honesto, justo e trabalhador. Freqüentava assiduamente a igreja da comunidade e participava das atividades e trabalhos relacionados a ela. Rezava, em alemão, antes das refeições, o Sinal da Cruz e a Ave Maria.
Homem marcado pelo sofrimento na incansável luta pela sobrevivência, sustento e bem estar de uma família numerosa. Não mediu sacrifícios, enfrentou dificuldades, superou dores e cansaço, dedicou-se ao trabalho constante.
Meu pai envelhecido conservou o espírito jovem, alegre e brincalhão. Ocupava-se no rancho, escolhendo fumo, amarrando vassouras, arrumando cabos de ferramentas. Ao perceber alguém chegando, espreitava à porta, com um largo sorriso de boas vindas e logo se aproximava, para um forte e grandioso abraço.
Foi um pai amigo, generoso e conselheiro. Tinha um sonho grande, de viver um século inteiro. No entanto, aos 73 anos de idade, a morte ceifou-lhe a vida de forma inesperada, no dia 22 de janeiro de 1995. Foi sepultado no cemitério municipal de Rio do Campo.
A meu pai minha prece e homenagem:
Vendo a lápide gelada que cobre teu jazigo,
meu pai querido,
Sinto no peito uma dor forte, imensa,
e tão intensa!
Olhando teu retrato percebo teu sorriso tranqüilo,
ao lado da inscrição que identifica tua passagem pela vida;
missão cumprida.
Ajoelhada aos pés de tua sepultura
tão escura,
ergo a Deus minha prece ardorosa,
e fervorosa:
“ACOLHE EM TEU REINO, SENHOR,
AQUELE QUE FOI NESTA VIDA UM HOMEM DE FÉ E DE BEM”.
Assim seja. Amém.