Capítulo 14 de 41
A vida da família em seu dia a dia
A família de Gabriel e Marta foi crescendo, os filhos foram nascendo um após outro e a primeira casa que tinham construído, além de pequena, não tinha conforto nenhum. Nela, segundo a mãe, era tudo provisório, mas este provisório se estendeu por muitos anos.
Em 1952, quando já éramos cinco filhos e eu tinha quatro anos de idade, foi construída uma casa nova.
Para construção desta casa a madeira para os barrotes, tábuas para paredes, assoalho e forro foi buscada naquele terreno que vovô Germano havia vendido em Rio Wildi com reserva de madeira de canela para uma casa. Esta madeira foi serrada em Rio Wildi, na serraria de Guilherme Stüpp. A parte destinada a assoalho e forro foi levada a Ribeirão Grande, para beneficiar, na marcenaria Loch. O transporte desta madeira já foi feito com caminhão.
Os paus quadrados de pinheiro, usados para a parte superior da construção foram tirados aqui, neste terreno e serrados a braço.
Lembro da maneira como era preparada a madeira para a construção da casa e também para os ranchos.
O pai derrubava os pinheiros. Quando era perto de casa, nós ouvíamos o eco das machadadas e assim que a árvore balançava, ele dava um grito. Então ficávamos atentos para ouvir e ver a queda. Em seguida ele desgalhava os troncos. Terminada esta parte, vinham vizinhos, irmãos e cunhados, ajudar a preparar as toras e trazer para perto de casa, arrastadas por juntas de bois grandes e chifrudos.
Ali os homens montavam o estaleiro em cima do qual ajustavam as toras, uma por vez, riscavam as linhas por onde deveriam ser cortadas e as serravam com uma serra grande, usada em sentido vertical. Um dos serradores ficava em cima do estaleiro e outro em baixo, puxando aquela serra, de cima para baixo e de baixo para cima. Vez por outra o vento levava serragem aos olhos deles e então precisavam interromper o trabalho para lavar os olhos. À medida que ia ficando pronta, a madeira era empilhada em forma de grades e deixada para secar durante algum tempo.

Tio Felipe foi o construtor de nossa casa, auxiliado pelo pai e o tio Gregório. Nós, crianças, ficávamos observando o trabalho dos adultos e brincando com serragem e pedaços de madeira. O Nilo tinha um pouco mais de um ano de idade. Andava no meio dos paus quadrados que os homens estavam alinhando na fundamentação e nós os irmãos maiores, tínhamos que ir sempre atrás dele para o tirarmos dali.
Esta casa foi feita em estilo europeu, semelhante à do tio Gregório, em Rio Waldrich e do tio Germano, em Rio Wildi. As grandes novidades para nós, foram o fato de ser coberta com telhas, ter fechadura com chave na porta da frente e janelas de vidro que se fechavam com trincos. Tinha na parte térrea, o quarto do casal, um quarto de visitas, sala e cozinha, e na parte superior, que chamávamos de sótão, o dormitório dos filhos e um espaço para depósito de mantimentos.

A porta dos fundos tinha apenas uma taramela por dentro e outra por fora. Não era preciso fechar a casa para protegê-la contra ladrões, mas apenas para evitar que nela entrassem o vento, a chuva e as galinhas que circulavam livres em volta.
À frente da casa havia uma área coberta, com assoalho, cercada apenas até a altura de aproximadamente um metro, com tábuas estreitas cuidadosamente recortadas, formando desenhos. Ali foram colocadas muitas folhagens, plantadas em vasos. O pai fez cantoneiras com forcas de fumo brabo que se apoiavam no assoalho em forma de tripé. Não se tinha vasos próprios para folhagens. Estas eram plantadas em latinhas, bacias e panelas furadas. Até o bule azul de esmalte, depois de nos servir o café por muitos anos, quando furou, transformou-se num lindo vaso. A mãe e a Maria, minha irmã mais velha, gostavam muito de folhagens. Buscavam pau podre nos pastos ou nas roças e preparavam uma terra boa para cultivá-las.
Sentada naquela varanda, aos domingos, a mãe lia o Almanaque, que era o único escrito a que se tinha acesso, além dos livros da escola. Era adquirido a cada início de ano, na igreja. Trazia histórias diversas que a mãe lia para nós e tinha um calendário com o nome do santo de cada dia, por isso nele se procuravam os nomes para os filhos quando nasciam. Também marcava os dias bons para pesca.
Na sala tínhamos uma mesa quadrada, com quatro cadeiras de palha, que servia para o jogo de baralho dos homens, nos domingos à tarde. Com o tempo, em dias de chuva, o pai fabricou dois bancos de sarrafos que foram colocados na sala. Estes, mais adiante, serviram para os casais de namorados sentarem nos domingos à tarde.
Numa das paredes da sala foram pendurados muitos quadros de santos e nas outras duas foram colocados panos de parede. Os panos de parede eram pedaços de tecido, retangulares ou quadrados, nos quais se fazia um bordado e se colocava ao redor uma bainha dupla como acabamento e uma alça em cada canto, para fixar em quatro pregos, na parede. Eu bordei um, como trabalho manual, quando estudava na quarta série. Representava um passarinho, um ninho e um coração, e tinha a frase: “A ave procura o seu ninho onde possa repousar, o homem procura um coração em que possa confiar”.

No mesmo tempo a mãe bordou um com a imagem do Sagrado Coração de Jesus e os dizeres: “Abençoarei os lares, onde a imagem do meu coração for exposta e venerada”.

Quando o pai comprou o rádio, por volta de 1956, este foi instalado na sala, numa tábua fixada a um canto, em forma de triângulo. Para o rádio funcionar foram fincadas no chão, no quintal, duas varas compridas para prender a antena. A partir de então, o pai se apressava para entrar em casa antes de começar a “Hora do Brasil” e depois da ceia ouvíamos músicas caipiras. Ao meio dia escutávamos na Rádio Aparecida o programa: “Os ponteiros apontam para o infinito”, apresentado pelo padre Vítor Coelho de Almeida.
O quarto do casal tinha a cama grande, o berço do bebê e mais uma cama pequena e larga, onde podiam dormir duas crianças. Assim os filhos menores, que ainda necessitavam de atendimento durante a noite, dormiam no quarto do casal. A mãe conta que o pai habituado a olhar as crianças antes de dormir, mais adiante, quando não havia mais bebê no berço e lá era colocada a boneca grande da Beatriz, ele, toda noite, puxava a coberta para cobri-la.
Neste quarto ficava também a “cadeia”, cantinho fechado embaixo da escada que levava ao sótão. Foi o tio Felipe que denominou aquele espaço de cadeia, mas ninguém nunca ficou preso nela. Ali se guardavam os retalhos que serviam para remendar a roupa, o balaio da roupa para consertar, os sapatos do pai e da mãe (que eles só usavam nos dias de festas) e outras coisas mais.
Numa das paredes havia uma prateleira de tábuas para guardar a roupa dobrada e atrás da porta, um cabideiro de pregos revestidos por carretéis de madeira (da linha de costura), para pendurar roupas.
A escada que levava ao sótão saía da cozinha. O sótão era dividido em duas partes: assim que se chegava ao topo da escadaria, ficava o depósito de mantimentos como arroz, feijão, mel, melado, banha e outros produtos da colheita. Do outro lado, o grande quarto com quatro camas largas e uma estreita. Nas camas grandes dormiam duas crianças, meninos com meninos e meninas com meninas. Em caso de número ímpar, um de nós dormia na cama estreita.
Nossos colchões eram de palhas de milho desfiadas e a cada manhã tinham que ser remexidas e afofadas para a noite seguinte. Os travesseiros eram de marcela, penas ou plumas e as cobertas eram de penas de patos ou gansos. Os lençóis e fronhas eram feitos de algodão cru ou alvejado e as capas das cobertas com tecido de estampas grandes e coloridas. Era comum haver pulgas em nossas camas e pela manhã, quando se ia arrumar as camas, procurava-se pegá-las para matar apertando-as entre as unhas dos polegares.
Na cozinha tínhamos o fogão, uma mesa grande com dois bancos e um armário para guardar louça e comida. Não havia pia, apenas uma mesa de tábuas, pregada no lado de fora da janela, onde se deixava o balde de água, a gamela que servia para lavar a louça e, pendurado num prego, um saquinho de coalhada (queijinho) que era feita a cada dia. O fogão econômico (que era um sonho de meus pais) foi comprado assim que fomos morar na casa nova, graças à venda de uma chiqueirada de porcos.
A mãe contava que o pai falava assim: “quando eu ficar rico, vou comprar uma máquina de costura”. Com o tempo conseguiu uma máquina de costura (daquelas tocadas a mão), mas não ficou rico. Depois falava: “quando ficarmos ricos poderemos ter um fogão econômico”. E conseguiram o fogão econômico, mas com isto não ficaram ricos.
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Na época em que aquela casa foi construída, éramos cinco filhos, mas como a família aumentava a cada ano e meio aproximadamente, em pouco tempo ela se tornou pequena. Foi então feito o acréscimo de um puxado, onde se instalou a nova cozinha, despensa, sala de jantar e área de serviço. Onde era a cozinha anterior foi feito mais um quarto e ao lado da escada que subia para o sótão foi deixado um espaço para colocar o guarda-roupa que foi uma aquisição nova para as “roupas de domingo” da família toda.
Na área de serviço ficaram: o poço, a desnatadeira de leite, o tanque de lavar roupas (feito com tijolos e cimento), o lavatório com a bacia de lavar as mãos e, numa repartição fechada, um tanque para tomar banho.
Com o passar do tempo a roldana e a manivela que se usavam para tirar a água do poço com baldes, foram substituídas por uma bomba manual e o pai fez uma calha de madeira, que se adaptava àquela bomba e alcançava o tanque da roupa. Assim, para enchê-lo de água era só bombar. Isto melhorou em muito as condições de trabalho e de vida da família.
Alguns anos depois esta casa recebeu pintura. Por fora foi pintada de verde, por dentro cada repartição de uma cor diferente e o forro com verniz vermelho. A partir de então, começamos também a passar cera no assoalho o qual, por si só já era muito bonito, de tábuas estreitas e beneficiadas, encaixadas umas nas outras e colocadas alternadamente, uma de canela outra de peroba, portanto, uma clara e outra escura. A cera era feita em casa, derretendo-se numa latinha, em cima do fogão, a cera da qual se espremia o mel de abelhas. Era preciso muito cuidado para não pegar fogo. Houve casos, naquele tempo, de pessoas que se queimaram ao preparar desta forma a cera para o assoalho.
Lá por volta de 1968 foi feita a instalação elétrica em nossa casa. Falava-se que em breve chegaria a eletricidade e os comerciantes e técnicos começaram a vender a fiação e fazer a instalação nas casas. No entanto nossa casa ficou alguns anos com a instalação feita, com tomadas e bocais para lâmpadas, antes que a energia chegasse, tanto que, em 1971 foi ainda comprado um lampião a gás, porque até então se usavam somente as lamparinas de querosene. Como entravam ratos no forro da casa muitos fios chegaram a ser roídos por estes, antes de terem sido utilizados.
Quando, em 1974, a eletricidade enfim se tornou uma realidade, foi necessário refazer toda a instalação da casa.
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Ao lado da nossa casa havia a construção de um rancho, que tinha o paiol, parte fechada onde se guardava o milho e outros mantimentos e outra parte aberta onde ficavam a carroça, os carros de bois, a lenha preparada para o fogão e o forno, o pilão para socar o arroz, o tacho para cozinhar o trato dos porcos, a estrebaria, e, a um canto, a privada. Em construção à parte, tínhamos os chiqueiros dos porcos e o galinheiro.
Nós usávamos a carroça quase que exclusivamente para ir à igreja, não servia para ir à roça, porque aquela estrada tinha uma parte muito perigosa, com curvas num grande morro.
Usávamos pouco o cargueiro, mas lembro que quando se usava, na ida para a roça, uma criança ia sentada em cima da cangalha com a rédea na mão para dirigir o cavalo e dentro dos jacás eram colocadas as crianças menores, procurando equilibrar o peso mais ou menos igual em cada lado. Mesmo assim o pai ou a mãe ia à frente puxando o animal.
Tínhamos três carros de bois: um pequeno para os bezerros que estavam sendo domados, um de um boi só e outro grande para os bois grandes. Um deles era usado quase que diariamente, para trazer aipim, mandioca, batata doce, inhame, ramas e outros tipos de trato para os animais ou lenha para o fogão e o forno. Sempre alguém andava à frente do carro puxando os bois pela corda e outra pessoa atrás com uma vara comprida (a aguilhada), batendo de leve neles, se não andavam direito. Na ida para a roça, íamos em cima do carro e na volta, vínhamos a pé.
Em época de colheita de milho, quando o peso era muito, os carros vinham “cantando” pela estrada e o pai andava do lado ajudando a segurar a carga para não tombar nas descidas dos morros, principalmente quando estava molhado e o caminho se tornava muito escorregadio.
Quando não levávamos o carro de bois ou cargueiro, o trato era trazido nas costas. Vinha o pai, a mãe, ou algum dos filhos com um balaio cheio de aipim ou batatas e os outros com as ramas ou baraços verdes.
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Era comum, principalmente nas tardes de verão, a gente “levar uma molha” de chuva. Como a maioria das roças era distante de casa, quando o tempo mudava repentinamente e víamos que a chuva estava perto, nos abrigávamos embaixo de árvores ou num ranchinho que o pai havia construído, quase no final do terreno. Porém, nem sempre dava tempo de procurar refúgio antes que a chuva iniciasse.
Quando chegávamos em casa molhados, o pai sempre tomava uma pinga. Às vezes, quando a chuva era muito gelada ou se havíamos ficado por muito tempo molhados, ele colocava um pouquinho de cachaça num café quente para todos nós tomarmos. Assim, segundo ele estaríamos protegidos contra a gripe. Aliás, ele tomava um “trago” todos os dias, ao chegar da roça, fosse molhado por chuva ou suor, porque chegava em casa sempre com a camisa encharcada. A pinga era para ele remédio para qualquer coisa e realmente tomou muito pouco remédio em toda sua vida.
Ao voltarmos da roça para casa, ao escurecer, muitas vezes vínhamos cantando pelo caminho as cantigas que aprendíamos na escola ou músicas que ouvíamos no rádio e chegando em casa enquanto tratávamos os animais e tirávamos o leite continuávamos as cantorias animadas.
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Tínhamos normalmente, quatro a seis vacas de leite. A Bonita fazia jus ao nome que tinha. Era branca, grande, muito mansa, de tetas grandes e moles para tirar o leite. Em compensação, a Neca dava muitos coices. Só a mãe conseguia tirar o leite dela e precisava usar trancas de madeira por trás e por frente das pernas traseiras, amarrar as duas pernas e ainda deixar o bezerro mamar um pouco para ela descer o leite. A Stern foi a vaca mais leiteira que tivemos na época em que eu era criança. Chegava a dar dois baldes por tirada nos primeiros tempos de cria, mas adquiriu o vício de mamar o próprio leite. Aí o pai fez uma focinheira com pregos grandes de forma que ela se machucaria quando fosse mamar, mas não adiantou. Então ele fez uma coleira de madeira, que não permitia que ela dobrasse o pescoço. A partir de então aquela vaca ficava dia e noite com aquela caixa de madeira presa ao pescoço.
Para as criações que pulavam a cerca, eram feitas cangalhas, em forma de A e colocadas no pescoço. As pontas longas batiam na cerca na hora em que queriam saltar, impedindo-as de fazê-lo.
Era comum também haver gado brabo nos pastos. Por isso cuidávamos para não passar muito perto do local onde se encontravam. Geralmente os mais brabos eram os touros, mas eram necessários para a procriação.
A única vez que me lembro de uma criação ter pegado uma pessoa, foi quando o pai comprou uma vaca que, de acordo com o proprietário anterior, era muito mansinha. Ele falou que para levá-la à estrebaria uma criança ia andando à frente dela e chamando. Na primeira manhã que a vaquinha estava em nossa propriedade, como ainda não estava acostumada a entrar em sua estala, enquanto a mãe terminava de tirar o leite de uma das outras, mandou a Maria entrar no pasto e chamá-la, conforme o homem havia ensinado. A Maria veio à frente e a vaquinha atrás dela, até que, de repente, foi para cima da Maria e a derrubou. A mãe ouviu os gritos e viu pela fresta da parede da estrebaria o que estava acontecendo. Enquanto levantava dali onde estava, sentada num banquinho, debaixo da vaca, com o balde de leite no meio das pernas, chamou pelo pai que veio correndo e pulou por cima da porteira. Até ele chegar para socorrer a filha, a vaca já estava pulando em cima dela e dando chifradas. Todos nós corremos até a cerca para ver o que se passava e vimos aquilo de longe. O pai conseguiu tirar a vaca de lá e prender na estrebaria. Levamos um susto muito grande. A Maria ficou bastante machucada, mas não foi grave e melhorou em alguns dias.
Em compensação tínhamos o Tigre, um boi de pêlo claro, cheio de pintas avermelhadas, motivo pelo qual havia recebido este nome. Costumávamos cangá-lo ao carro de um boi só e qualquer criança podia conduzi-lo, tão manso era. Um dia a Ana, com cinco ou seis anos de idade, foi sozinha levar o almoço para os que estavam na roça. A mãe cangou o Tigre, colocou a trouxa do almoço em cima do carro e a Ana foi puxando o boi morro acima, para ir até os fundos, onde o pai, o José, a Maria e o João Preto estavam trabalhando.
Quando estava iniciando a subida mais acentuada do morro grande, a brocha que se prende à canga, ao redor do pescoço do boi, se soltou, o carro deslizou para trás, arrastando-se de volta pela estrada, até chegar a um lugar plano. E o Tigre ficou ali parado quietinho.
Como a Ana era muito pequena e não conseguia colocar o boi de volta no carro, amarrou-o numa árvore ao lado da estrada e foi até onde o pai se encontrava, para que ele viesse buscar o carro e o almoço.
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Nossas principais plantações eram: milho, abóbora, feijão, arroz, aipim, mandioca, batata inglesa, batata doce, cará, batata salsa, taiá, cana de açúcar, fumo e soja. Cultivávamos algumas hortaliças como repolho, alface, beterraba, cenoura, pepino e melancia.
O trabalho na lavoura era todo feito à base da enxada, foice e machado. Nós crianças, íamos junto com o pai e a mãe para a roça, cada qual com sua enxada e ajudávamos a capinar, plantar e colher. Eu já ia à escola quando o pai comprou o primeiro arado e a capinadeira.
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O plantio do milho era feito quase sempre nas coivaras, abrindo-se um furo na terra com um pau (o sacho) ou cavando-se um buraco com o enxadão e jogando as sementes em cada cova, cobrindo-a em seguida.
O milho foi a principal lavoura durante muitos anos. Destinava-se ao consumo, em forma de farinha, para o pão e a polenta, como trato principal dos animais e era também vendido em pequena quantidade.
No meio das roças de milho plantavam-se as sementes de abóboras e estas eram colhidas junto com o milho, pois maduravam na mesma época. As abóboras maduras eram amontoadas no rancho e tratadas aos poucos para as vacas e os porcos.
A colheita do milho acontecia no tempo de inverno. Para a colheita de milho o pai preparava o carro de bois com a ceve feita de taquaras, que era bem mais alta do que a caixa de madeira que se usava normalmente. Chegando à roça, os bois eram retirados do carro e amarrados a algum tronco de árvore.
A colheita se iniciava no meio da roça. Era escolhido um local para ser feito o monte e então os adultos colhiam o milho, quebrando as espigas, iniciando nas proximidades do local escolhido e indo sempre em volta, jogando-as até o monte. Quando aquele monte ficava distante, iniciavam outro e então as crianças, recolhiam as espigas do chão e enchiam os jacás (balaios grandes) que o pai depois carregava até o carro de bois.
Assim, de espiga em espiga, de balaio em balaio, se enchia a “ceve” do carro e de carrada em carrada se enchia o rancho de milho.
Ajudar na colheita do milho era um dos serviços de que eu mais gostava e antes de entrar na escola, quando a Maria e o José já estudavam, eu ficava muito contente quando podia ir com o pai, na parte da manhã, para ajuntar o milho do monte para o balaio, mesmo com geada ou vento frio.
Durante o dia era feita a colheita e trazido o milho até o paiol. À noite, depois da janta, fazíamos a ”escolha”. Era preciso desocupar o espaço para colocar a colheita do dia seguinte. Sentávamos ao redor do grande monte de milho que tinha sido despejado no centro do paiol e fazíamos a seleção, jogando para um lado o milho bom, para outro as espigas estragadas ou abertas e para outro os “restolhos” (espigas pequenas). E enquanto escolhíamos, geralmente, rezávamos o terço, já que naqueles dias não o fazíamos após a refeição.
Do milho bom era reservada a quantia necessária para o consumo e o restante era vendido. O milho ruim era tratado por primeiro, para as galinhas e porcos. Os “restolhos” eram tratados para o gado, principalmente para as vacas de leite. Quando se descascava o milho, as palhas eram guardadas para tratar o gado no tempo de inverno. Apesar dos gatos que tínhamos, os ratos entravam no rancho e sempre estragavam parte do milho.
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Cultivávamos o aipim para comer e a mandioca para tratar os animais e para fabricação de farinha e polvilho.
O polvilho era fabricado em casa. As raízes da mandioca eram raspadas com faca, tirando-se a pele escura e em seguida lavadas e raladas em uma engenhoca caseira, tocada a mão. A massa obtida era colocada, parte por parte, num saquinho de algodão e lavada em duas ou três águas. Aquela água era deixada em grandes cochos, onde o polvilho assentava no fundo. A cada dia era preciso lavar o polvilho e trocar a água, isto durante uma semana ou mais. Aí iniciava a secagem. Era retirada daquele cocho uma parte do polvilho molhado e espalhado sobre tabuleiros e lençóis brancos que se estendiam ao sol para secar. Depois de bem seco recolhia-se em latas e era guardado para consumir durante o ano todo. Assim podíamos comer roscas, todos os domingos, enquanto havia polvilho.
Houve um tempo em que plantamos mandioca para vender. O pai levava de carroça ou de carro de bois até a fecularia de Paulo Marcelino Fernandes, no Rio Azul. Na volta trazia massa (parte de mandioca ralada, que sobrava, depois de escorrer o polvilho) para tratar galinhas e porcos. Guardava esta massa, num buraco que cavava no chão, a fim de poder tratar aos poucos. Mais adiante a mandioca passou a ser levada de caminhão para a fecularia. Fazíamos então a colheita toda em alguns dias, às vezes com ajuda de vizinhos, amontoando as raízes num local onde o caminhão pudesse chegar.
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Outra cultura importante era a de feijão. Faziam-se duas colheitas por ano, a safra e a safrinha. Para plantar, as covas eram abertas com enxada ou enxadão, nelas colocados alguns grãos de semente e cobertos de terra. Para colher arrancavam-se as plantas, tendo o cuidado de não arrebentar as raízes. Cada feixe arrancado era amarrado pelas raízes e deixado sobre o terreno onde estava por um ou mais dias, para pegar sol e secar. Depois era levado, em carro de bois, para o rancho onde ficava pendurado em estaleiros por mais uma semana ou duas.
Escolhia-se então um dia de sol bem quente para bater esse feijão a fim de debulhar os grãos. Varria-se bem um chão limpo no terreiro, fazia-se um monte com os pés de feijão e ali, debaixo do sol, batia-se sobre ele, com toda a força, com varas grandes. As varas próprias para bater o feijão eram duas varas unidas em uma das extremidades por um pedaço de couro e se chamava mangual. Depois de batido todo o feijão tiravam-se as palhas, sacudindo bem para os grãos caírem. Em seguida o feijão era recolhido e peneirado para cair a sujeira e o pó que ficavam no meio. Se preciso, era colocado para secar no sol, por mais alguns dias, em cima de couros de boi ou de tabuleiros. Por mais cuidado que se tivesse, sempre ficava barro no meio do feijão e este precisava ser escolhido antes de colocar para cozinhar.
Por algum tempo cultivou-se feijão e também soja para vender. O cultivo de feijão e soja para vender, ocorreu depois que já havia a máquina manual para plantar e a trilhadeira, que serviam para o feijão, soja, arroz e milho. Mesmo assim, cultivar em quantidade maior era um trabalho exaustivo, porque a colheita era feita debaixo de sol quente, as vagens peludas davam muito pique (coceira) e o resultado da colheita dependia sempre das circunstâncias do tempo. Em função disto e de muitas perdas por motivo de chuvas no tempo da colheita, voltou-se a plantar apenas para consumo próprio. * * *
A lavoura que mais me fascinava, quando pequena, era a de arroz. O arroz era plantado no seco, em carreiros. As covas eram feitas com enxada ou enxadão e nela colocados, com a mão, alguns grãos de semente. A colheita era a mãe que fazia. Pegava uma cesta de vime, pendurava no braço, pela alça, e com uma pequena faca de ponta passava pelos carreiros, colhendo um a um os cachos maduros, colocando-os com cuidado na cesta. Quando esta enchia, despejava o arroz nos jacás, para ser levado para casa no cargueiro. Semanas depois ela passava novamente, na mesma roça, para colher as espigas que não estavam bem maduras na primeira passada.
Os cachinhos eram colocados para secar no sol ou em cima do assoalho, num canto da casa e depois os grãos eram despencados dos cachos, com ajuda de uma pequena tábua, por baixo da qual se puxava a palha que se desprendia dos grãos.
Aos poucos as técnicas foram mudando. A colheita passou a ser feita cortando-se os pés inteiros e batendo os molhos em tábuas, para debulhar.
Quando se iniciou o plantio do arroz irrigado eu já ia na escola. Nossas primeiras arrozeiras foram feitas no terreno dos fundos, perto da casinha que tínhamos lá para nos abrigar das chuvas e para fazer as refeições quando a comida era levada à roça e onde pai pendurava a chaleira de ferro num gancho e fazia fogo em baixo, para ferver a água para o chimarrão.
O nivelamento do terreno para fazer as arrozeiras, foi feito a enxadão e pá e o barro era carregado de um lado para outro, de acordo com a necessidade, em pesados carrinhos de mão, feitos de madeira. Os valos para levar a água do riozinho até elas também foram abertos com pá. Deste serviço participava a família toda, o pai, a mãe e nós crianças. Trabalhamos muito tempo na preparação da terra para as arrozeiras. Fizemos alguns quadros no primeiro ano e mais alguns nos anos seguintes. Fazer arrozeiras era uma novidade para esta região e o pai orgulhava-se delas. Ele já conhecia esta forma de plantio nas terras do sul do estado, de onde veio e tinha sempre o sonho de fazer isto, aqui em Rio do Campo. Quando fazíamos as arrozeiras, duas coisas boas nos atraíam: os coquinhos maduros que caíam de um coqueiro ali perto e que podíamos recolher e chupar e as cenouras que podíamos arrancar do canteiro e lavar no riozinho para comer na hora do descanso.
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Cultivávamos também cana de açúcar. A cana era cortada no tempo de inverno e levada de carro de bois ou de carroça, até o engenho de Gregório Debarba, no Tamanduá ou de João Preis, em Rio Waldrich. Dias depois buscávamos melado e açúcar mascavo, que conservávamos em latas para consumir durante o ano todo.
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A primeira plantação de fumo que fizemos, foi de fumo de corda. As folhas eram colhidas e estendidas sobre estaleiros, para amarelar. Em seguida eram destaladas, trançadas em forma de corda e enroladas em paus. Aí todos os dias estes rolos tinham de ser trocados de um pau para outro e colocados para secar ao sol.
Aconteceu que, em certa ocasião, o pai passou uns dias fora de casa ajudando outros a serrar madeira e a mãe ficou só com as crianças preparando as folhas de fumo para enrolar e aquilo era um serviço muito difícil e complicado.
A mãe contava que numa noite daquelas, estavam os dois tão cansados que, no meio do sono, era como se estivessem trabalhando e ouviam o bebê chorar, mas não conseguiam acordar. Então o pai, dormindo, falou: “não escutas que o nenê está chorando?” E a mãe respondeu: “já vou atender, mas preciso terminar estas folhas. E porque tu não vais atender?” E ele respondeu: “é que não posso soltar essa tora agora, preciso ver primeiro se está bem amarrada para não cair”. Depois acordaram e perceberam que ambos tinham falado dormindo, dominados pelo cansaço e o bebê estava chorando.
O fumo de corda só foi plantado por alguns anos. Depois se iniciou o plantio do fumo de rancho, o amarelão, que era vendido em folha para a Exportadora Catarinense, que tinha depósito em Taió.
Em seguida entrou em Rio do Campo a Companhia de Fumos Souza Cruz. Esta companhia fez campanha para os colonos plantarem para ela. Apresentou até um filme, mostrando lavouras de fumo e a maneira de cultivar e cuidar delas. Aquela foi uma das poucas vezes que o pai saiu de casa à noite, sem ser na noite de natal. A Maria, o José e eu, tivemos oportunidade de ir com ele e assim aos 10 anos de idade assisti ao primeiro filme de minha vida.
Desta forma os colonos foram incentivados e treinados para o cultivo do fumo e receberam acompanhamento de instrutores que passaram a visitar sistematicamente as lavouras e orientar sobre a maneira de efetuar cada etapa, desde o canteiro de sementes, o plantio, a pulverização de venenos contra insetos, a capinação, a desbrota, a colheita, as regras para secagem, a escolha e classificação, o enfardamento e a remessa.
O canteiro para semear era cuidadosamente preparado e depois da semeadura era coberto por uma talagarça. Precisava ser regado diariamente. A água era tirada do poço, carregada em baldes e despejada no regador para fazer a irrigação. A plantação era feita em carreiros. Quando começava a madurar colhíamos as folhas, em passadas sucessivas enchendo os carros de bois. Ao descarregar, no rancho, eram feitas fileiras de folhas e ali à frente delas sentávamos para fazer as fichas que eram depois penduradas.
Demorava mais ou menos um mês para secar. Uma vez seco, aquele fumo era recolhido e cedia lugar para a próxima remessa que estava sendo colhida. Terminada a colheita e secagem começava a escolha, classificando-se de acordo com as orientações do instrutor e fazendo os fardos com identificação, para serem remetidos à Souza Cruz, em Blumenau.
O tempo da plantação de fumo foi um período bastante longo e de bom rendimento, para nossa família, comparando-se com as outras lavouras.
No meio das roças plantávamos melancia e estas maduravam na época da colheita do fumo. Por alguns anos colhemos muita melancia, a ponto de não conseguirmos consumir tudo e então repartíamos com vizinhos, parentes e amigos.
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Quando estávamos na roça, o pai se orientava pela posição do sol para saber a hora. Fora disto, o horário que todos nós conhecíamos, sem auxílio de relógio, era marcado por um bando de papagaios barulhentos que passava em revoada, sempre às cinco horas da tarde.
O primeiro relógio da nossa família só foi adquirido em 1951, na véspera do nascimento do Nilo, data que ficou registrada na memória da mãe, porque o relógio era uma novidade e a parteira comentava sobre o tempo do trabalho de parto. Era apenas um relógio despertador comum e foi pago com quatro carroçadas de nós de pinho, negócio feito com Vicente Destéfani que era comerciante em Rio do Campo.
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Como andávamos sempre descalços aconteciam com freqüência pequenos acidentes como pisar em espinhos, fazer cortes com enxada e dar “topadas”. Quando pisávamos em espinhos o pai cortava com o canivete uma pequena camada da pele da sola do pé, no local onde havia o espinho e assim podia vê-lo e retirá-lo com uma agulha. Depois ele batia no local com o cabo do canivete, para não “arruinar”. Para curar das “topadas” que dávamos, machucando as unhas dos dedos dos pés (às vezes quase as arrancando) o remédio era lavar bem o pé machucado com água morna e sabão, colocar banha de porco e enfaixar com uma tira de pano branco, por dias repetidos até sarar. O mesmo procedimento era feito com relação aos cortes de enxada.
Cortes de enxada eram comuns nos pés mas houve casos em que aconteceram na cabeça. Um destes foi com o José. A Maria indo para a roça com a enxada nas costas, chegando ao coqueiro que tinha à beira do caminho, abaixou-se para recolher coquinhos maduros caídos no chão e nisto bateu com a enxada na cabeça do José que estava atrás dela. Outro que levou enxadada na cabeça foi o Nilo. Ele e a Salomé estavam disputando a mesma enxada, cada um puxando de um lado. Quando a Salomé conseguiu se apossar dela ergueu-a e girou no ar, ao girar acertou a cabeça dele. Em ambos os casos houve sangue escorrendo pelo meio dos cabelos e foi necessário a mãe fazer curativos.
O José levou também uma pedrada na cabeça. Ele estava arrancando aipim na roça abaixo do morro de pedras e o Nilo, que era menor, estava esperando na estrada. Começaram a atirar pedras para ver quem jogava mais longe. Como no meio da roça onde o José se encontrava não tinha mais pedras que ele pudesse arremessar pediu ao Nilo que atirasse uma para ele. O Nilo jogou e acertou a cabeça do irmão, fazendo um corte profundo. O pior foi explicar em casa como isto acontecera, uma vez que era hora de estar trabalhando e não brincando, outra que não se devia jogar pedras.
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Era frequente ficar em casa uma criança maior cuidando dos menores, com a incumbência de também lavar a louça e limpar a cozinha. Se fosse pela manhã, precisava ainda cuidar do fogo para cozinhar a panela de feijão que a mãe deixava sobre o fogão. Muitas vezes deixávamos o fogo apagar e como era difícil acender novamente, quando a mãe chegava, perto do meio dia, o feijão não estava cozido.
Minha primeira experiência de cozinheira foi quando, numa manhã, fiquei responsável de cuidar do fogo e cozinhar o feijão. A mãe recomendou muito para não deixar o fogo apagar e falou que devia sempre olhar dentro da panela.
Esforcei-me ao máximo. A cada instante colocava mais lenha no fogão. O fogo trepidava, a chapa ficava vermelha, e eu, de vez em quando levantava a tampa da panela e olhava dentro dela. Quando a mãe veio da roça, de longe sentiu o cheiro de feijão queimado. Entrou depressa e me perguntou se eu não tinha olhado na panela. Respondi que sim e ela me perguntou porque não tinha colocado água dentro. Decepcionada, falei que a mãe só dissera para olhar na panela e eu não sabia que era para colocar água dentro.
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Quando a mãe tinha bebê novo, ao terminar o resguardo, ia capinar a roça de aipim, que era próxima de casa e então nós levávamos até lá o bebê, no meio da tarde, para ela amamentar. Íamos em dois, um com a criança e outro segurando a sombrinha para a proteger do sol. Quando o bebê já tinha alguns meses, era levado junto para a roça e colocado sobre um pano velho, numa sombra, onde as outras crianças cuidavam dele.
O pai contava que quando a Maria, a filha mais velha, era bebê, eles a levavam junto para a roça e a deixavam dentro de um balaio debaixo de uma árvore. Aí o cachorro sentava ao lado e cuidava dela. Numa sexta feira à tarde, ao voltarem para casa, o pai emborcou o balaio e deixou lá. Quando voltou àquela roça na segunda feira, o cachorro estava ali, sentado ao lado do balaio, sedento e faminto. O pai sentira falta dele, mas jamais imaginara que estaria lá, cuidando do balaio onde costumavam colocar a criança.
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O pai viera de uma região em que a maior parte da terra era preparada com arado, mas aqui só havia mata virgem e capoeirão. Para que o arado pudesse ser usado era necessário que os terrenos estivessem livres dos tocos e raízes que ficavam depois da derrubada do mato. O pai tinha sempre um grande desejo de preparar a terra para trabalhar com arado e conseguiu um por empréstimo do tio Fernando, por volta de 1956.
Começou então a destocar a terra, o que deu muito trabalho. Vieram vizinhos e parentes, para ajudar. O tio Lino, meu padrinho veio com o filho dele o Bertolino, que tinha uns 12 anos de idade. Ele olhava para um toco grande daqueles e dizia: “este eu arranco com uma cabeçada”. Porém, a destocada não era tão fácil assim. Era preciso cavar e retirar a terra em volta de cada toco de árvore, com enxadões, picaretas e pás e depois disto, muitas vezes, usar ainda uma alavanca para levantar e arrancar as raízes mais profundas.
A cada ano mais um pedaço de terreno era destocado, e assim, aos poucos, grandes trechos foram sendo preparados, para poder trabalhar com o arado.
Aquele primeiro arado que o pai usou, era de uma só chapa, que virava a terra somente em um sentido havia muito morro perdia-se muito tempo. Assim sendo, o pai não estava satisfeito e alguns anos depois conseguiu adquirir um de duas chapas, que mandou vir de Forquilhinha, com o qual podia arar o eito de uma ponta a outra na ida e na volta.
Para puxar o arado usávamos bois e cavalos. Uma criança à frente, puxando o boi para fazê-lo caminhar dentro do rego (valo feito na passada anterior) e o pai segurava o arado. Para conduzir o cavalo nem sempre era preciso andar à frente, a criança podia ir montada.
Certa vez levei um susto com um touro manhoso na canga. Eu estava puxando este animal à frente do arado e ele não queria andar. O pai foi gritando com ele e chicoteando, até que ele veio numa disparada para cima de mim. O pai segurou o arado firme na terra, com toda a força que podia e mesmo assim custou conseguir segurá-lo. Depois de passar o susto, contava que nunca tinha virado um pedaço de terra tão depressa como naquele dia.
Na mesma ocasião em que comprou o arado o pai comprou também a capinadeira com a qual podia capinar pelo meio dos carreiros das plantações, na mesma terra já preparada para usar o arado. A capinadeira era também puxada por bois ou cavalos e colocava-se um bornal na boca deles para não comerem as plantas.
Após passar com a capinadeira passava-se ainda com a enxada para limpar o mato que restava próximo às plantas.
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Cada ano, após vender os produtos da colheita principal o pai e a mãe iam de carroça até a “venda” para fazer as compras do ano. A “venda” era a casa de comércio onde havia tudo o que se precisasse comprar. Normalmente traziam tecidos, chapéus, tamancos, ferramentas, querosene para as lâmpadas, soda para fazer sabão, sal, café e uma saca de açúcar.
Voltavam para casa com peças inteiras de algodão para fazer cuecas, calcinhas e roupa de cama; riscado para as calças de homem; xadrez para camisas, vestidos e aventais. Aos poucos a mãe ia costurando aquela roupa e vestia a família inteira, geralmente com a mesma estampa. Traziam também tecidos para fazer uma roupa melhor para ser usada aos domingos.
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O pai, assim como os outros moradores desta região, ia a cavalo até Taió, para registrar os filhos, vender borboletas e pagar o imposto da terra. E quando alguém ficava doente e custava melhorar com os chás caseiros ele ia a Ribeirão Grande comprar remédios. Ao voltar destas viagens, geralmente à noite, costumava vir cantando pelas estradas. Assim, quando ouvíamos o trote do cavalo e a cantoria, sabíamos que era ele que estava chegando.
A primeira farmácia em Rio do Campo era das Irmãs Franciscanas, congregação esta que já atendia no hospital de Ribeirão Grande.
E, quando alguém quebrava um osso o socorro era o seu Alberto Petry. Ele arrumava o osso quebrado ou “destroncado”, fazia uma tala e enfaixava. E as pessoas se curavam assim.
O seu Alberto Petry foi também quem conseguiu o primeiro ônibus que passou a fazer a linha Rio do Campo a Taió, passando por Passo Manso. Um dos filhos dele, Daniel, foi o primeiro motorista. Como a estrada era muito ruim, quando chovia o ônibus patinava e até mesmo encalhava. Aí os passageiros precisavam empurrar ou cavar à frente dos pneus e jogar mato para conseguir desencalhar. Cada viagem era uma aventura e muitas vezes ficava tarde da noite até chegarem de volta em casa. Isto sem contar as vezes em que o ônibus nem saía de Rio do Campo, devido ao tempo muito chuvoso e então as pessoas que realmente necessitassem, por algum motivo urgente, precisavam ainda ir a cavalo ou de carroça.
Falando em Alberto Petry, quando um de seus filhos se tornou padre, o padre Ivo, houve grande comemoração em Rio do Campo. As Irmãs Catequistas prepararam com os alunos uma recepção com cantos e versos. No domingo, houve a Primeira Missa solene e depois nossa família participou do almoço oferecido pelo seu Alberto, na residência dele, junto com grande número de convidados. As mesas para o almoço foram montadas no rancho, assim como se fazia nas festas de casamento.
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Nossa alimentação consistia nos produtos da própria colheita. Feijão, farinha de mandioca, aipim, batata doce e carne de porco constituíam os alimentos principais, para o almoço. As refeições da manhã e da noite eram à base de café com leite e pão (de batata doce, cará e farinha de milho). Para passar no pão tínhamos coalhada (queijinho), nata, manteiga, mel e melado de cana. À noite, o feijão que sobrava do almoço, era servido frio e quando havia sobras de aipim, este era frito com toucinho. Também comíamos ovos fritos nas épocas em que havia bastante e vez por outra polenta com leite.
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Para obter o mel de abelhas, o pai recolhia os enxames que pousavam em troncos de árvores ou em palanques de cerca e colocava em caixas de madeira especialmente preparadas. Nestas caixas, as abelhas fabricavam os favos e o mel. Para abrir as caixas e retirar o mel, o pai fazia fumaça que as deixava mais mansas, ou tontas. Mesmo assim muitas vezes as abelhas invadiam a casa toda e levávamos doloridas ferroadas. Os favos eram espremidos com a mão e o mel guardado em latas para ser usado durante o ano.
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Após a refeição da noite, era hora da reza do terço. A mãe puxava a oração com as intermináveis ave-marias das contas do rosário e nós respondíamos a segunda parte. Sempre alguém cochilava. Quando o João Preto morava conosco, ficava à espreita e jogava uma casquinha de pão na testa de quem cochilasse.
João Preto, assim era conhecido por todos. Um senhor de pele escura, provavelmente descendente de escravos, homem trabalhador, solteiro, sozinho na vida. Veio para Rio do Campo em companhia da família de Alberto Petry.
Trabalhava para os colonos, geralmente contratado para fazer as derrubadas de mato, era muito bom no machado e na foice.
Sua bagagem eram umas poucas roupas de vestir e um cavalo velho encilhado. Morava aqui e acolá, com as famílias dos colonos para quem trabalhava. Aos domingos ele ia até o centro e voltava sempre bêbado. Fora isto, era um bom homem. Tinha um dom especial de benzer as crianças com “sapinho” e as pessoas que tivessem “zipra” (erisipela) ou hérnia. Fazia aniversário no dia 24 de junho, daí seu nome - João.

João Preto e Lindomar Petry (seu afilhado).
Atrás o primeiro ônibus de Rio do Campo.
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Houve um tempo em que passava em Rio do Campo, a cada duas semanas, um comprador de manteiga e ovos: o seu Mané Inácio. A mãe colocava a nata de alguns dias, que já estava azedando, na batedeira de manteiga, uma caixa feita de madeira, dentro da qual se encaixava uma tábua com cabo, que se ia puxando para cima e empurrando para baixo, de forma que a batia, até transformar em manteiga. A manteiga pronta era guardada numa bacia grande, com água. Aquela água tinha que ser trocada todos os dias.
Os ovos eram embalados, um por um, para não quebrarem na viagem. Pegava-se uma palha de milho, colocava-se o ovo dentro, dobrava-se a palha ao meio e amarravam-se as pontas juntas, com uma tira feita também de palha. Fazia-se isto à noite, após o jantar, nos dias que antecediam à passagem do seu Mané Inácio. Dúzias e dúzias de ovos eram assim preparadas.
Como o seu Mané Inácio não ia até Rio Waldrich, algumas famílias de lá traziam sua manteiga e ovos até nossa casa, para poder vender. Tudo estava muito bem, até que uma vez o seu Mané deixou passar o dia marcado e não chegou. Passaram-se dias e mais dias e ele não veio. A manteiga estragou, os ovos apodreceram, ele nunca mais apareceu e os colonos ficaram no prejuízo.
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A cada duas ou três semanas era preciso levar milho à atafona, para moer, a fim de se fazer pão e polenta. Muitas vezes uma criança fazia isto, indo a cavalo, até a atafona do seu Atílio Vavassori, perto do centro de Rio do Campo, levando o milho e voltando com a farinha (fubá). Chegando lá, o seu Atílio nos ajudava a apear e depois montar novamente, além de retirar o saco de milho, moer e colocar novamente sobre o cavalo.
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Tínhamos sempre porcos na engorda, em chiqueiro, e de vez em quando se matava um para comer.
Havia procedimentos próprios para a conservação da carne. A parte melhor era cortada em pedaços pequenos e frita na banha, só com sal, até ficar bem corada e guardava-se num grande pote de barro envolvida na banha onde fora frita. Outra forma de conservar era fazendo lingüiça. Com o toucinho fazia-se a banha e o torresmo. Com o fígado, coração, língua, pele e sangue fazia-se a morcilha. Os ossos eram deixados inteiriços e depois de retirada a maior parte da carne, iam para a salmoura, numa gamela. Nesta salmoura também se colocavam as costelas, uma manta de toucinho e tiras de pele. Depois de dois dias, era tudo retirado da salmoura, amarrado com fios de barbante e pendurado ao sol, em varas, para escorrer a água. Para defumar, tanto a carne da salmoura como a lingüiça, colocava-se perto do tacho onde se cozinhava o trato dos porcos ou então se fazia um fogo para este fim.
Depois se colocavam aquelas varas cheias de carne e lingüiça na cozinha, perto do fogão, bem no alto. Os ossos e a pele passavam a ser cozidos no feijão. As costelas e parte do toucinho eram usados para temperar o gemüse (prato típico entre as famílias de origem alemã). Outra parte do toucinho servia para fritar aipim e ovos.
Quando se matava um porco, havia o hábito de levar um pedaço de pernil para os vizinhos. Estes também retribuíam e assim se tinha novamente uma carne fresca, para fazer um assado.
Usávamos pouca carne de gado, somente quando se vendia para o açougue e se reservava uma parte. Para conservá-la era feito charque.
A caça que tinha sido abundante nos primeiros anos em que nossos pais moraram aqui, já quase não existia mais. O pai quando ia para a roça costumava levar consigo a espingarda mas caçava apenas aves. Também construíamos arapucas e as armávamos à beira do caminho da roça para pegar rolas. Fazíamos um carreiro de grãos de milho e elas seguiam os grãos e caíam na arapuca. Desta forma pegávamos muitas rolas, às vezes até duas juntas, o que era motivo de muita alegria.
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A criação de porcos destinava-se ao consumo da família e também para vender. Os porcos eram criados soltos no pasto, até alcançarem o tamanho ideal para a engorda e então eram presos em chiqueiros e tratados com milho, abóbora, aipim, inhame e batata doce. O inhame e a batata doce eram cozidos, à noite, para tratar no dia seguinte. Depois que íamos dormir, um tição de fogo continuava aceso até acabar de queimar, assim na manhã seguinte as tachadas de trato estavam ainda mornas e nós gostávamos de levantar bem cedo e comer daquelas batatas. A gente procurava as bem grandes, tirava a casca com a mão e comia a parte do miolo. Até o pai muitas vezes escolhia as batatas para nós, descascava com o facão e nos entregava na mão. E ele também comia.
Quando havia uma chiqueirada de porcos gordos, passava o caminhão para levar. Eram pegos e pesados um a um, numa gritaria que só terminava quando o caminhão seguia viagem. Aí era só esperar o dia marcado e receber o pagamento. O pai sempre gostou do trabalho de engorda de porcos e dizia: “catinga de porco é cheiro de dinheiro”.
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O inverno era muito intenso, intercalando-se o vento frio, as geadas e as chuvas. Como dormíamos no sótão, muitas vezes nos assustávamos com o vento forte que nos dava impressão de que as janelas e o telhado da casa seriam arrancados a qualquer momento. Dali podíamos ouvir o vento uivando entre as árvores e vê-las balançando fortemente de um lado para outro.
À noite, íamos dormir cedo e nossas camas eram quentinhas com os colchões de palha e cobertas de penas. Mas, pela manhã, quando a geada se estendia como um longo manto branco sobre as pastagens e as árvores, as roupas de inverno que tínhamos eram insuficientes para nos aquecer. A mãe nos ajeitava ao redor do fogão a lenha, até o sol aparecer e então colocava um banco no lado da casa onde pegava sol. Nós sentávamos ali, encolhidos e quietinhos, até nos esquentar.
Nos dias de chuva o pai rachava tabuinhas para cobrir os ranchos. Aplainava-as firmando uma por vez num cavalete e passava sobre ela uma grande faca com cabo nas duas extremidades. E olhando a chuva ele dizia: “chove chuvinha que eu estou em casa”.
Em outros tempos, ocupava-se nos dias de chuva, fabricando bancos e cadeiras de sarrafinhos. Era um trabalho lento, tudo feito a mão, peça por peça, desde cortar a madeira até alisar, lixar e pregar.
Enquanto isso a mãe, além de fazer a comida e os serviços rotineiros da casa, costurava e remendava roupas. Às vezes, ela fazia uma boneca de pano para as meninas. Pegava pedaços de roupa velha, que não se podia mais usar, enrolava e ajeitava numa ponta, como se fosse uma cabeça com touca, amarrava firme e enrolava um pedaço de pano em volta, imitando um cobertor. E nós brincávamos faceiras com aquelas bonecas até se desmancharem. Em compensação, os meninos ganhavam os carretéis de madeira, quando a linha de costura acabava. E, com um pedaço de madeira e dois carretéis, faziam um carrinho.
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O rio que passa na extremidade de nosso terreno foi sempre, para mim, um misto de encantos e angústia. Para chegar até ele, era preciso passar pelo meio do pasto dos animais e superar algumas dificuldades:
o medo dos grandes chifres das vacas e dos bois; as rosetas que havia no meio da grama e nos machucavam os pés;
e os quero-queros.
Os quero-queros faziam os ninhos no chão e se passássemos perto, avançavam sobre nossas cabeças fazendo muito barulho e tentando nos bicar. Mesmo assim os meninos gostavam de procurar os ninhos.
E o que íamos fazer à beira do rio?
Muitas vezes a mãe lavava ali a roupa, ajoelhada sobre o lavatório, que ajustava sobre as pedras de forma a ficar parte dentro da água e outra parte fora. Enquanto ela lavava, nós brincávamos por perto e ajudávamos a estender a roupa nos gramados para quarar. Depois de lavada a roupa a mãe trazia o balaio cheio, nas costas, para vir estender perto de casa.
Outras vezes, principalmente no tempo da quaresma, em que não se comia carne às sextas-feiras e na quarta feira de cinzas, íamos pescar. À tarde, pegávamos piavas e carás e ao anoitecer os jundiás. Como iscas usávamos minhocas que conseguíamos cavando embaixo de paus podres e em lugares estercados próximos aos currais. Estas eram colocadas em uma cuia com um pouco de terra. Pescar era sempre uma atividade de lazer.
No tempo das gabirobas, o que nos atraía era a colheita destas frutinhas que havia à beira do rio. Além de comer recolhíamos nos chapéus para trazer para casa e repartir.
Havia um lugar onde o rio era bem raso e tinha enormes pedras que apareciam fora da água, ali podíamos entrar para tomar banho. O banho no rio era uma diversão, mas só podíamos ir acompanhados pelo pai e a mãe, ou um deles.