Capítulo 17 de 41
Datas especiais e acontecimentos
As datas mais importantes para mim, a cada ano, sempre foram o Natal, a Páscoa, Corpus Christi, a Festa da Igreja e o Dia de Finados.
O Natal era a festa mais esperada do ano. Tudo o que se relacionava a tempo, quando criança, relacionava-se ao tempo que
faltava para o Natal.
E o ano era tão longo e o Natal estava sempre tão distante!
Quando enfim chegava, os preparativos iniciavam durante a semana que antecedia a grande data. A casa era toda lavada, por dentro e por fora, o teto, as paredes, as janelas e o assoalho. Varríamos muito bem os ranchos, os terreiros, os arredores, a estrebaria, os galinheiros e até embaixo da casa. Fazíamos as vassouras com ramos verdes de vassourão que amarrávamos com tiras de roupa velha ou barbantes.
Para o Natal o pai comprava trigo, açúcar e pó para pudim. A mãe fazia docinhos redondos e em formato de grandes argolas. Mais tarde, quando foram compradas forminhas especiais para fazer doces, estes passaram a ter formato de vaca, galo, galinha, boneco, estrela, pinheiro e coração.
Conforme a tradição em nossa família era o Menino Jesus quem pintava os docinhos. Por isso eram deixados em uma lata, na cozinha e durante a noite desapareciam. Na noite de Natal o Menino Jesus os trazia, confeitados com açúcar branco e pintados com lindas cores.
Na véspera de Natal eram feitos bolos, cucas, pão de trigo e o “eiercrans”, um pão doce típico dos descendentes de alemães, feito em forma de coroa trançada e salpicado com gema de ovo e açúcar. Isto exigia muito cuidado e aproveitamento do forno a lenha que devia ser esquentado a cada intervalo de uma fornada e outra.
Para o almoço eram preparados: uma galinha recheada ou pernil, “gemüse”, arroz e sobremesa. A sobremesa consistia em pudim de leite, acompanhado de molho com sabor de baunilha. O pudim era dividido em xícaras umedecidas com água, de acordo com o número de pessoas da família. No dia seguinte virava-se cada porção em um pires e à hora de servir despejava-se por cima um pouco de molho.
Enquanto a mãe se ocupava com os afazeres da cozinha, ajudada pelas meninas, os meninos preparavam o trato dos animais e a lenha para o fogão. O pai buscava um pinheirinho, que já havia escolhido com antecedência.
O momento culminante dos preparativos era a hora em que o pai chegava com a árvore de Natal. É inexplicável a emoção que isto nos causava. Ela era sempre bem grande e o pai a trazia com dificuldade, devido ao peso e aos espinhos.
Enfim colocada na sala, ocupava todo um canto e alcançava, geralmente, do assoalho ao teto. Colocávamos nela, então, algumas bolas coloridas, chumaços de algodão e velas. Os enfeites que tínhamos eram poucos, mas aos meus olhos de criança inocente, ela se tornava linda como toda árvore de Natal. Na mesa da sala, colocávamos pratos vazios, um para cada criança, a fim de recebermos dentro deles nossos presentes.
Ao entardecer tomávamos banho e saíamos para brincar no pasto dos porcos, tendo cuidado para não nos sujarmos. Este era o ritual de espera da passagem do Menino Jesus e nenhuma criança deveria vê-lo, porque então ele não deixaria os presentes.
O pai e a mãe naquela hora faziam o serviço da noite: tratar os animais, tirar leite e preparar a mesa para a ceia. Enquanto estavam ocupados com o trabalho, segundo eles, o Menino Jesus passava sem que eles o tivessem visto. Então nos chamavam e vínhamos correndo, ansiosos.
Ao entrarmos em casa, as velas do pinheirinho estavam acesas e nossos pratos cheios de docinhos coloridos, algumas balinhas, um bombom de açúcar - comprido e listrado - e um pequeno chocolate em forma de Nicolau. Dentro do mesmo prato, ou ao lado, havia também os presentes: carrinhos, bolas, gaitinha de boca, bonecas. Lembro que uma vez eu e a Salomé ganhamos bonequinhas que abriam e fechavam os olhos e estavam vestidas com roupa do mesmo tecido de nossos vestidos novos.
Depois de cada um ter admirado o seu presente e o dos irmãos, nos colocávamos em volta do pinheirinho e cantávamos o “Noite Feliz”.
Sem dúvida, aquela noite era realmente feliz para nós.
Em seguida era a hora da ceia, na qual comíamos pão de trigo, cuca, bolos e docinhos. Achávamos aquilo tudo muito especial e o clima era verdadeiramente de festa e alegria.
À meia-noite havia a Missa do Galo. Esta era, via de regra, a única ocasião em que o pai saía de casa à noite. À medida que íamos crescendo podíamos ir com ele. Assim, no Natal depois de minha primeira comunhão eu também pude ir à Missa do Galo. Era uma noite de luar e fomos a pé, o pai, a Maria, o José e eu.
Era assim o Natal de nossa infância, tão simples, tão pobre, mas tão feliz, que deixou saudades no coração de cada um de nós.
Somente uma vez o Natal foi triste para mim. Ao ver os presentes fiquei decepcionada e chorei muito porque esperava ganhar um par de sapatos e ganhei uma bonequinha daquelas bem pequenas, que nem mexia os braços e pernas. A mãe tentou me convencer de que meu presente era bonito, mas eu senti que ela também estava triste. Eu havia pedido um calçado para ir à missa aos domingos, porque minhas sandálias da primeira comunhão não serviam mais e não compreendia porque não havia ganhado o que eu tanto esperava.
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Quanto à festa de Páscoa, o que chamava mais a nossa atenção eram os cerimoniais realizados na igreja, desde o domingo anterior, e que continuavam durante aquela semana.
No domingo de ramos, durante a bênção e a procissão, o povo erguia os ramos verdes e cantava: ”Hosana, Hosana”. Havia ramos de todos os tipos: palmas, folhas de palmeira, de coqueiro ou de qualquer planta. Eu sempre invejava aquelas palmas bonitas, mas a mãe não conseguia cultivá-las, por isso levávamos folhas de palmeiras do mato. Em compensação, hoje temos uma palmeira daquelas em frente à casa e sempre que olho para ela lembro do quanto eu desejava ter uma palma destas para levar no domingo de ramos. E o faço agora, com muito prazer.
A Semana Santa era cheia de abstenções e compromissos com a igreja.
Na quinta feira participávamos da missa do lava-pés. Sempre achei aquela cerimônia muito bonita. Doze homens sentavam lá em cima no altar e o padre lavava e secava os pés deles. Naquele dia, ao terminar a missa o padre abria o sacrário, tirava de lá o cálice com as hóstias e levava para um altar improvisado nos fundos da igreja, onde iniciava a adoração ao Santíssimo, que teria continuidade no dia seguinte.
Para a adoração, na sexta feira santa, era feita uma escala com horários marcados para cada capela e para a matriz. Nosso horário era de acordo com o grupo do qual fazíamos parte: “Cruzadinhos” (as crianças a partir do dia da primeira comunhão), “Filhas de Maria” (as moças), “Marianos” (os moços) e “Apostolado da Oração” (os casais). O pessoal de Taiozinho e de Rio Waldrich, passava de carroça para ir fazer a adoração no horário estipulado para eles e, muitas vezes, ao voltar, algum parente dava uma chegadinha em nossa casa. Às três horas da tarde, iniciava a celebração, com muitas leituras, orações e o ritual de beijar a cruz. Depois tinha ainda a Via Sacra que era rezada em forma de procissão pela estrada.
O sábado era dia de silêncio em homenagem a Jesus morto. Não devíamos falar muito alto, nem brigar entre os irmãos. E, à semelhança da véspera de Natal, tínhamos muito trabalho com os preparativos para o domingo de Páscoa, tanto na parte de limpeza como na parte da alimentação porque para aquele dia também se fazia pão de trigo, cucas e bolos.
Na noite de Páscoa, enquanto dormíamos, o coelhinho passava e deixava para cada um de nós uma cestinha com casquinhas de ovos pintadas em várias cores e cheias de amendoim torrado. Pela manhã encontrávamos nossas cestas, e então íamos primeiro à missa e somente depois podíamos abrir uma casquinha para comer o amendoim.
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No dia de Corpus Christi fazia-se em Rio do Campo uma grande procissão e a estrada por onde esta passaria era enfeitada com um trilho de serragem com desenhos coloridos. Ao longo do caminho eram cavados buracos e fincadas plantas de paus d´água e taquaras com folhas de palmeiras. Eram feitos quatro altares para a bênção do Santíssimo, cada um voltado para um dos pontos cardeais: norte, sul, leste e oeste.
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A festa do padroeiro São José acontecia no dia 19 de março de cada ano. Após a missa, almoçávamos no salão da igreja e o pai trazia para nossa mesa uma garrafa de cerveja para ele e gasosa para nós. Ficávamos lá a tarde toda. Havia roda da fortuna, toca do coelhinho, pescaria e música.
O leiloeiro (Emilio Padilha ou Hilário Bogo) andava pelo meio do povo leiloando prendas que tinham sido doadas: um bezerro, um leitão, um bolo e outras coisas mais. ‘’Tantos cruzeiros me dão. Quem dá mais?’’ Perguntava ele. E as pessoas iam aumentando a oferta. Quando ninguém mais oferecia valor maior, ele gritava: “vou entregar o prêmio, e dou-lhe uma e dou-lhe duas e dou-lhe três”. Entregava aquele prêmio e logo aparecia com outro. Assim passava o dia, fazendo barulho e arrecadando dinheiro para a igreja.
Uma vez o pai arrematou um bolo, que tinha formato de caminhão carregado com três toras. O caminhão era um carrinho de madeira todo revestido de glacê e as toras eram três bolos enrolados. Foi uma alegria muito grande trazermos para casa aquele bolo.
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O dia de finados era uma data muito valorizada. A Igreja Católica tinha, na época, a tradição de atribuir Indulgência Plenária (perdão total dos pecados) a uma alma do purgatório, cada vez que uma pessoa entrasse na igreja ou no cemitério, a partir das 12 horas do dia um até as 18 horas do dois de novembro, e lá rezasse, com devoção, seis Pai-nossos, seis Ave-Marias e seis Glórias. Muitos católicos faziam verdadeira maratona de conquista de indulgências, entrando seguidamente na igreja ou no cemitério, fazendo as orações prescritas, saindo e retornando. Muitas vezes eu participei dessa tradição com a “certeza” de que cada vez que eu saía da igreja, mais uma “alma sofredora” estava chegando ao céu.
A princípio não tínhamos falecidos de nossa família no cemitério de Rio do Campo, mas sempre vinham de Taiozinho, algumas pessoas da família de Vendolino Nienkotter, trazendo coroas de flores para colocar no túmulo de uma menina que tinham sepultado aqui. Vinham na véspera, que era dia santo por ser “Dia de todos os Santos”, dormiam em nossa casa e na manhã seguinte íamos todos juntos à missa e ao cemitério. Voltando de lá eles almoçavam conosco e à tarde retornavam para sua casa.
Quando a família de Vendelino Heinzen saiu de Rio do Campo, assumimos o compromisso de levar flores na sepultura de uma filha dele, que era afilhada da mãe e que morrera com dois anos de idade, por motivo de grave queimadura.
Mais tarde o tio Lino e a tia Elizabeth se mudaram para o Paraná, ficamos responsáveis de colocar flores também na sepultura da Angelina, filha deles.
Angelina falecera com 13 anos de idade. Ficou muito doente, por alguns dias, com febre alta e delirava o tempo todo. Foi levada de carroça até o hospital de Taió e faleceu lá. Segundo o médico, era a Gripe Asiática. Isto foi no ano de 1957.
A morte desta prima foi a primeira experiência de morte, da minha vida, por isto lembro de todos os detalhes que a envolveram. À tarde fomos todos até a casa do tio e a vimos no caixão. Sobre o vestido branco com o qual a vestiram, haviam colocado os “santinhos” que ela tinha ganhado na escola. Naquela noite, o pai e a mãe foram ao velório e nós ficamos sozinhos em casa. Demoramos a adormecer porque ficamos conversando sobre a morte da prima e a imagem dela nos voltava à mente.
Dia seguinte fomos ao sepultamento. O fotógrafo foi chamado para tirar uma foto da família.

Depois foram feitas orações, fecharam o caixão e o colocaram em uma carroça. Ao lado do boleeiro, sentou-se um dos irmãos da menina falecida, que levava a cruz com uma coroa de flores. Diversas carroças, de vizinhos e parentes, seguiram atrás. Ao passarmos em frente à “venda” de Albertinho Lückmann, ele havia fechado a porta, em sinal de respeito.
O corpo foi levado para a igreja, onde houve orações e depois seguimos a pé para o cemitério, que era ali próximo, rezando o terço pelo caminho.
Chegando lá, quatro homens, com ganchos de ferro, desceram o caixão numa cova profunda. Então todas as pessoas jogaram punhados de terra, que caíam sobre o caixão fazendo um barulho muito triste. Dois homens, com pás, jogaram o restante da terra, amontoando a sobra de barro, por cima da sepultura, em nível mais alto do que o restante do terreno. Na cabeceira colocaram a cruz com a coroa de flores.
Em cima daquela sepultura a tia Elizabeth plantou uma muda de palmas brancas que todos os anos florescia.
No dia 22 de setembro de 1958 a mãe teve um bebê que faleceu no mesmo dia. A tia Mechtilde que atendeu a mãe no parto, vendo que o menino não estava bem, apressou-se em batizá-lo. Ele recebeu o nome de Vilmar. A partir desse ano, no dia de finados, colocávamos na cruz da sepultura dele uma pequena coroa de rosas naturais, daquelas que se cultivavam entrelaçadas à cerca dos quintais, ou de rosas de papel crepom que as Irmãs Catequistas ensinaram a fazer.
Quando o cemitério de Rio do Campo foi transferido para o Tamanduá, um punhado de terra da sepultura de Angelina foi colocado junto com outro punhado de terra da sepultura de nosso irmão Vilmar e lá foi feito novo jazigo.
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Em tempos de muita seca, o povo se reunia, juntamente com o padre e as irmãs e fazia procissões, para pedir chuva. Eu participei de algumas, no meu tempo de escola. Chegamos a fazer caminhada, rezando e cantando, desde a igreja até o Paredão, onde havia uma capelinha de Nossa Senhora e também da igreja até a capela de São Roque, na fazenda de Luiz Bértoli.
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Se, por um lado, a vida era difícil e a situação financeira precária, nem por isso as pessoas deixavam de ter bons momentos e comemorações festivas, como as surpresas de aniversário que aconteciam vez por outra e se transformavam numa linda festa.
Era tudo combinado e preparado pelo esposo ou esposa do aniversariante com os vizinhos.
Lembro de um aniversário do pai. Estávamos todos na cozinha esperando a mãe preparar a ceia quando ouvimos o som de uma gaita tocando lá fora, em frente à nossa casa. Fomos todos para a porta e lá estavam os vizinhos, com luzes acesas, trazendo (em peneiras grandes - que se usavam para peneirar feijão e arroz) cucas, doces e bolos coloridos. Estava também a família do tio Gregório, que era quem tocava a música. E veio aquela gente toda (homens, mulheres, jovens e crianças) entrando em casa, cantando e conversando, na maior alegria. Então a mãe fez o café e todos comemos juntos a comida que haviam trazido.
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Os casamentos eram também ocasiões de muita alegria. Usava-se a expressão “vai dar doce” para referir-se a um casal de namorados que provavelmente chegaria ao casamento e, literalmente, havia doces no café da tarde, nas festas do casamento. Isto mesmo, docinhos de polvilho e de trigo. Estes eram feitos com antecedência guardados em latas.
Os demais preparativos referentes a alimentação tinham de ser feitos na véspera, porque não havia geladeira, nem freezer. Para isto reuniam-se homens e mulheres, na casa onde se realizaria a festa e ali matavam um porco e algumas galinhas, faziam pão, roscas de polvilho, bolos, cucas, toucinho do céu e outras coisas mais. Preparavam o espaço num rancho onde improvisavam mesas e bancos com tábuas e cavaletes.
No dia da festa tudo era colocado bem cedo a assar e cozinhar e a família acompanhava os noivos até a igreja. As carroças eram geralmente enfeitadas com fitas coloridas e após a cerimônia, seguiam uma após outra, até o local onde seria realizada a festa. Os noivos eram recebidos na porta da casa com uma garrafa de vinho, que era servido a eles e aos pais e neste momento havia muitas vezes um discurso.
Como a cerimônia costumava ser realizada pela manhã, servia-se almoço e café da tarde. Havia muita fartura, mesas cheias de comida, tudo preparado de forma simples e bem caseira, carnes, batatas, arroz, aipim, macarrão, “gemüse” e alguma salada de acordo com a produção da época. Para sobremesa, usava-se colocar juntamente com o almoço, pratos de arroz doce.
À hora de servir, eram convidados para a mesa, em primeiro lugar os noivos com os pais e padrinhos e as pessoas mais idosas. Quando estes terminavam a refeição retiravam-se e outras pessoas eram convidadas a sentar à mesa e assim sucessivamente até todos almoçarem, sendo que as crianças ficavam por último. Para servir as mesas, lavar a louça e repor, ajudavam-se os próprios convidados, alternando-se no trabalho.
Assim que todos os convidados haviam almoçado iniciavam-se os preparativos para o café da tarde que era servido nas mesas, com grande variedade de pães e doçuras. Este iniciava com o corte do bolo dos noivos e seguia até todos os convidados terem sido servidos.
Enquanto lá no rancho o pessoal almoçava e tomava café, na sala da casa, um gaiteiro tocava e os casais dançavam. Meu pai sempre fazia questão de dançar com a noiva. Ele dizia que uma festa de casamento não teria graça se tivesse que voltar para casa sem ter dançado com a noiva.
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O espírito de colaboração entre as pessoas que foi uma característica marcante entre os nossos parentes nos
primeiros tempos nesta região, se estendeu também
aos vizinhos e persistiu ao longo dos anos.
Se alguma família se encontrava em dificuldades ou precisando de algum favor, havia sempre alguém pronto a ajudar. Era comum um homem vizinho sair, de dia ou de noite, buscar a parteira para a esposa de outro a fim de que ele pudesse ficar em casa com ela. Quando uma vizinha tinha bebê, outra vinha diariamente dar o banho no recém nascido e muitas vezes ajudar no serviço da casa. Quando numa família a vaca de leite secava alguém lhe mandava todo o dia uma garrafa de leite para as crianças. Os homens se ajudavam nos trabalhos mais pesados como puxar toras e serrar madeira. Funcionava também o empréstimo de um para outro, de algum produto indispensável como o milho para fazer fubá e assim por diante.
Um fato que está em minha lembrança e que merece ser aqui citado refere-se à morte de Hermelindo Nascimento, um vizinho nosso da outra margem do rio, no Tamanduá. Ele e João Tambosi estavam fazendo uma cerca. Quando João levantou a marreta para bater em cima de um palanque que Hermelindo estava segurando, a marreta caiu do cabo e o atingiu na cabeça, ocasionando-lhe morte instantânea. A viúva ficou com filhos pequenos e estava grávida. Um grupo de pessoas se reuniu para atender as roças dela e a ajudaram a preparar a terra, plantar e colher.