Capítulo 18 de 41
A igreja caiu
No Natal de 1955 eu tinha sete anos de idade e no ano seguinte entraria na escola. Meu presente, dessa vez, tinha sido um caderno, um lápis e uma caixinha (meia dúzia) de lápis de cor.
Tínhamos passado um dia feliz, porque era Natal, e a magia desta data nos encantava, em nossa ingenuidade e inocência, com o pinheirinho enfeitado, o presépio na igreja, os presentes e as comidas especiais.
Assim que anoiteceu, quando estávamos terminando a ceia, levantou-se uma grande trovoada. Começou com trovões e relâmpagos. Depois veio um vento muito forte.
O vento vindo do sul, contra a porta da cozinha da nossa casa, ameaçava arrancar a taramela que a fechava por dentro. O pai, num impulso, firmou-se com os pés colados no assoalho e curvado em direção à porta, segurando-a com as mãos e o corpo, contra a força do vento. Mandou que saíssemos todos para a sala, porque, se a porta se abrisse, o vento levaria diante de si o que houvesse pela frente e poderia estourar as janelas e o telhado.
Foram momentos de pavor, choro e desespero. A mãe correu buscar uns ramos bentos, que colocou no fogão para queimar. No meio daquela angústia toda, de repente, ouvimos um barulho muito grande e imediatamente começou a chover dentro da cozinha, por cima do fogão. Foi a chaminé que caiu e quebrou parte do telhado.
E o pai continuava segurando a porta.
Quando a ventania diminuiu um pouco, ele pediu um martelo, firmou novamente o prego da taramela e então pode soltar a porta.
Enfim, a tempestade passou e nos sentimos aliviados. O pai, porém, falava que ouvia um barulho estranho e sentia que alguma coisa mais grave acontecera, em algum lugar não muito longe. Estava preocupado, mas como era uma noite escura, não havia nada a fazer, a não ser que alguém viesse chamar por socorro.
No dia seguinte ele saiu cedo em direção ao centro, a fim de saber quais tinham sido os estragos da tempestade. Lá chegando, viu, com os próprios olhos, a igreja caída ao chão. Juntou-se às pessoas que lá estavam e soube que, à noite, após o vendaval e a chuva, os moradores da vizinhança haviam ido até ali ver a igreja caída e como o sino também caíra, colocaram-no sobre umas madeiras e tocaram por um tempo, badalando com a mão. Fora este o som estranho que o pai ouvira e que não conseguira identificar.

A igreja caiu. Só permaneceu de pé, balançando, a parte do altar onde estava o sacrário e as imagens de Nossa Senhora e de São José, o padroeiro. O pai voltou para casa trazendo a triste notícia. Fiquei muito chocada com o acontecido e mais emocionada quando ele contou que, do meio daquelas madeiras espalhadas pelo chão, ouvia-se um gemido e algumas das pessoas que lá estavam diziam que era Nossa Senhora chorando porque o Menino Jesus do presépio havia se quebrado. Outros diziam que devia ser um sapo, ou rã, que estaria trancado entre as madeiras. Em minha mente infantil fiquei com a primeira versão e senti tristeza por isto. À tarde o pai atrelou os cavalos à carroça e fomos todos até lá. Para mim, ver a igreja caída foi uma decepção muito grande.
Porém, segundo a mãe, já era de se esperar que isto acontecesse, pois no dia sete de outubro daquele ano, dia de Nossa Senhora do Rosário, o povo estava todo reunido dentro da igreja quando deu uma trovoada com muito vento e chuva. A igreja balançava e muitas pessoas correram para fora. Naquela ocasião o padre falara que as pessoas não deviam ter saído da igreja, pois, se ela caísse e todos morressem dentro dela, esta seria uma morte muito bonita!
O padre que havia rezado a missa de Natal naquela manhã, saíra à tarde. Então um dos homens ali presentes, Paulo Marcelino Fernandes, levou o tabernáculo para o salão paroquial, que foi adaptado para servir como igreja. E serviu para esta função por muitos anos.
Somente na década de 60 foi iniciada a construção de nova igreja em Rio do Campo, esta que ainda temos. Nela trabalharam todos os homens das famílias católicas da localidade. Aos domingos, após a missa, o padre lia o nome dos ajudantes da semana, que compareciam, sem falta, para auxiliar os pedreiros contratados. As pedras usadas na fundamentação foram tiradas no Caçador, quebradas com ponteiros, à força de marretas e transportadas em zorras, carros de bois e carroças. A construção iniciou quando era pároco o Padre Paulino Galbusera e foi concluída no tempo do padre Cornélius Kniebeller. Passou por uma reforma em 2004, sob orientação do padre João (Jan Flig).