Capítulo 10 de 41
De São Maurício a Rio do Campo
Germano Haverroth e Ana Meurer moravam em São Maurício, pequena localidade do município de Braço do Norte, no sul do Estado de Santa Catarina. Trabalhavam na lavoura, tinham engenho de cana de açúcar e de farinha de mandioca e atafona.
Os sete filhos mais velhos já haviam casado, mas nem todos tinham um pedaço de terra para trabalhar. Por isto, preocupado com o futuro dos filhos e motivado pelas notícias que se espalhavam, de que havia terra boa e barata na região do Alto Vale do Itajaí, no interior do Estado, no ano de 1936, Germano fez uma viagem para conhecer essas terras. Veio até Ribeirão Grande (hoje Salete) e ficou encantado com a quantidade de terras disponíveis.
Diversas famílias do sul já tinham vindo para esta região, adquirido terrenos e fixado residência, porque lá no sul já não havia mais terras suficientes para todos os filhos, uma vez que as famílias eram numerosas.
Germano voltou dessa viagem decidido a mudar-se com toda a família e colocou sua propriedade à venda.
Enquanto organizava seus negócios, até conseguir vender suas propriedades, quatro de seus filhos (Maria, Elizabeth, Luzia e Felipe) vieram para Rio Wildi (Ribeirão Grande), antes do pai, acompanhando as famílias Stüpp e Dieckmann. João e Cristina Stüpp (sogros de Maria e Elizabeth) mudaram-se com os filhos: Guilherme, Henrique, Otto, Fridolino, Leonardo, Gabriel e Helena. Guilherme era padrinho de minha mãe (Marta). Mais tarde, uma filha de Guilherme (Elisabeth) casou-se com Lino Kühlkamp, irmão de meu pai (Gabriel).

Assim que vendeu tudo o que tinha em São Maurício (por quarenta e dois contos de réis), Germano Haverroth comprou terras também em Rio Wildi e veio morar definitivamente nesta região trazendo consigo o restante da família. Isto foi em maio de 1937.
Para a viagem dividiram-se em grupos: Fernando e Rodolfo vieram a cavalo, trazendo cargueiros com mantimentos e também algumas vacas de leite e novilhas. Antônio e Antônia, que eram recém casados, vieram de carro de bois. Fazendo parte da mesma comitiva veio também José Uliano (cunhado de Rodolfo e Antônio) com outro carro de bois.
Num pequeno caminhão que trazia a mudança vieram o casal Germano e Ana com as filhas solteiras Verônica, Marta e Helena; as noras Cecília e Gertrudes; os filhos de Rodolfo e Cecília: Germano, João Batista, Salomé e Maria; os filhos de Fernando e Gertrudes: Ana, Reinoldo e Bartolomeu.
Da mudança faziam parte: louças, roupas, roupas de cama, sacos de feijão, charque, banha, carne de porco, farinha, açúcar e latas de doces.
O caminhão veio por Anitápolis e subiu pela serra. A estrada era péssima e de vez em quando o caminhão encalhava. Ao passar pelas pontes, três delas se quebraram, sendo que numa o caminhão ficou pendurado. Foi então preciso buscar ajuda, descarregar tudo para puxar o caminhão e depois recarregar novamente.
Durante a viagem, a alimentação consistia em pão, lingüiça, revirado de galinha na farofa e charque, que tinham preparado com antecedência, antes da partida.
À noite chegavam a ranchos de pousada que havia pelo caminho, faziam um fogo, esquentavam água para fazer café, preparavam uma refeição, ajeitavam suas camas e dormiam ali, de qualquer maneira. No dia seguinte continuavam a viagem. Isto era assim, independente do meio de transporte utilizado com apenas uma diferença: os que vinham a cavalo ou de carro de bois precisavam arrumar pasto para os animais pastarem durante a noite.
A viagem demorou três dias para os que vieram de caminhão, 10 dias para os que vieram a cavalo e 15 dias para os que vieram de carro de bois.

Devido às más condições das estradas, o caminhão da mudança de Germano só pode chegar até Taió. De Taió a Ribeirão Grande o percurso foi feito em duas carroças, que faziam normalmente este trajeto levando e trazendo passageiros e mantimentos. Chegando em Ribeirão Grande as mocinhas Verônica (com 16 anos) e Marta (com 14 anos) foram sozinhas, a pé, por uma estrada aberta no meio do mato, até chegarem à primeira casa existente em Rio Wildi, onde morava Guilherme Stüpp, para avisar que a família Haverroth havia chegado a Ribeirão Grande e que era preciso buscá-los.
Chegando lá deram o recado e logo saíram homens com carroças para buscar o pessoal e a parte da bagagem que tinham consigo. O restante das bagagens foram buscadas em Taió, durante a semana seguinte.
Germano e sua família, assim que chegaram, ficaram morando em hospedagens improvisadas na casa e no rancho dos Stüpp, até derrubar o mato, limpar a terra, serrar madeira e construir suas casas nos seus terrenos que ficavam ali próximos.
Quando a família Haverroth chegou era o tempo da colheita e a família Stüpp já tinha feito suas plantações nesta terra e tinha colhido milho. Assim havia bastante palhas de milho para rasgar em tiras e com elas encher os colchões das camas, já que estes tinham sido trazidos vazios devido ao volume que isto significava na mudança.
As principais plantações feitas nesta região, na época, eram: milho, abóbora, aipim, feijão, batata doce e cará.
Enquanto não possuíam sua plantação própria, Germano comprou uma roça de aipim em Barra Grande, e, uma vez por semana, alguém ia até lá, com um cargueiro, buscar aipim para comer. Para se conservar esse aipim por mais tempo, enterravam uma parte e iam retirando aos poucos, conforme a necessidade.
Como não tinham ainda pasto para as criações, os cavalos eram soltos num faxinal cercado, que pertencia a Luiz Bértoli. Aquela área era muito grande, por isso era colocada uma sineta em um dos animais, para mais fácil localizá-los, na hora em que precisassem. As vacas de leite e os bois que eram usados para o serviço eram amarrados com cordas compridas. Dizia-se: “amarrar na soga”.
Helena, a filha mais nova de Germano, que ainda ia à escola, foi morar em Ribeirão Grande, na casa de Roberto Jasper, para poder estudar.
Aos poucos os mantimentos que haviam trazido com a mudança, para seu sustento, foram terminando. Quando terminou a farinha, Germano foi de carroça até Ribeirão da Erva (Taió), para comprar farinha nova. Naquela ocasião minha mãe foi com ele, e lembra que, na mesma viagem, ao voltar, compraram uma vaca e umas galinhas da família Müller, em Ribeirão Pequeno.
Todas as terras que havia à venda na região de Ribeirão Grande e Rio do Campo, na época, pertenciam a Luiz Bértoli, que as havia conseguido do Governo do Estado em troca de construir estradas e trazer gente para colonizá-las.
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Pouco tempo depois de terem se fixado em Rio Wildi, assim que a estrada foi sendo aberta na direção de Rio do Campo, Germano e Ana com as filhas solteiras Verônica, Marta e Helena e os filhos casados Fernando, Rodolfo e Felipe, decidiram mudar-se para Rio Waldrich, onde as terras eram melhores. Maria, Elizabeth, Luzia e Antônio, com suas famílias, ficaram morando por mais tempo em Rio Wildi. As famílias Stüpp e Dieckmann, anos depois, mudaram-se dali para o Paraná e a família de Antônio mudou-se bem mais tarde para Taiozinho.
Rodolfo Haverroth foi o primeiro da família a construir sua casa em Rio Waldrich e esta foi a primeira casa com assoalho daquela localidade, as demais eram de chão batido.
Ali conheceram Jacó Waldrich que vivia na localidade há muito tempo, com sua família, no meio do mato, de forma bastante primitiva e já cultivava milho, feijão e algumas hortaliças, entre elas o repolho. Tinha cavalos e criações de gado. Assim sendo, já havia terra desmatada e pastagens. Jacó Waldrich foi o único morador daquela região até a vinda dos colonizadores. Em homenagem a ele a localidade recebeu o nome de Rio Waldrich.
A família Haverroth teve bom relacionamento com Jacó Waldrich e foi com ele que aprenderam tomar chimarrão e preparar a erva-mate. A erva-mate encontrava-se no meio do mato. Era colhida, chamuscada, deixada para secar à sombra ou no forno (após tirar o pão), depois muito bem amassada ou socada no pilão. Como cuia servia qualquer caneco ou a legítima cuia obtida através de plantação de cuieiras. A bomba era fabricada com um pedaço de taquara fina, recortado e alisado numa extremidade, deixando na outra o nó e fazendo em volta muitos furinhos.
Uma vez aberta a estrada até esta localidade, em pouco tempo a região toda foi se enchendo de colonos, a maioria de origem alemã e de religião católica.
Aos domingos as famílias se reuniam na casa de Rodolfo Haverroth para a reza do terço e nesta casa foi também rezada a primeira missa em Rio Waldrich, pelo padre Aldo de Mádice. As crianças, em casa, aprendiam rezar em alemão e aos domingos, Cecília, esposa de Rodolfo, ensinava as orações em português.
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Era hábito entre o povo de origem européia falar a língua pátria de seus antepassados, mas era proibido pelo governo. Por isto, na família de Germano Haverroth todos já haviam aprendido falar português, mesmo que, de uma forma bastante deturpada.
Numa ocasião em que a vovó Ana estava junto numa viagem a Taió, na hora de desembarcar da carroça, sem querer ela falou uma expressão em alemão. Naquilo estava passando um homem que olhou muito sério para eles e os ficou observando. Levaram um susto muito grande, pois poderia ser um dos fiscais do governo, que, segundo comentários da época, faziam as pessoas que encontrassem falando idioma estrangeiro engolir óleo cru. Por sorte, ficaram só no susto e nada mais grave aconteceu. Mas dali para diante todos se cuidaram muito na hora de falar.
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Em pouco tempo os moradores de Rio Waldrich, sentiram necessidade de construir uma escola. A maior parte deles havia vindo de regiões onde havia escola para as crianças e eles próprios haviam freqüentado as aulas, pelo menos por um ano ou mais. Uniram-se então e construíram uma escola. Na escola passou a ser feita também a reza do terço aos domingos, a celebração da missa, os batizados e casamentos, de tempos em tempos, quando vinha um padre.
As aulas iniciaram nesta escola no ano de 1941 e o primeiro professor foi Adolfo Loch, que já tinha sido o primeiro professor na sede de Rio do Campo onde havia lecionado por 2 anos. Este professor ficou só por alguns meses em Rio Waldrich e a professora que o substituiu foi Francisca de Moraes. Depois desta vieram as Irmãs Catequistas Franciscanas, que assumiram a escola, a catequese e o culto dominical.
Alguns anos depois da construção da escola, lá pelo ano de 1943, a comunidade se mobilizou para a construção da igreja. Esta deveria ser de alvenaria. Para isto os moradores começaram, com antecedência, a fabricação dos tijolos. Cada dia da semana um grupo de pessoas trabalhava nesta tarefa. Foi feita uma engenhoca, na qual se cangavam bois para amassar o barro até dar o ponto do tijolo. Então os tijolos eram moldados a mão, numa caixinha, um a um, e em seguida retirados e levados para secar em estaleiros. Depois eram cozidos em fornalhas.
Assim que os tijolos ficaram prontos foi iniciada a construção, tendo como pedreiro responsável Felipe Haverroth, que além da capela, foi o responsável pela construção de muitas casas na região e trabalhou também com os Bértoli, na construção da fecularia em Ribeirão Grande e da fábrica de papelão em Rio do Campo.
A capela teria como padroeiro São Sebastião, nome escolhido por Germano Haverroth, porque a igreja que ele freqüentava em sua infância, em Vargem do Cedro, era dedicada a este santo e tendo ele dado a sugestão, toda a comunidade havia concordado. Tinham até conseguido um quadro do santo e o povo aprendera a cantar o hino a São Sebastião e já festejava o padroeiro no dia 20 de janeiro.
No entanto, quando o padre Eduardo Summermatter passou a visitar a comunidade de Rio Waldrich, escolheu Santo Alberto para padroeiro daquela capela, mesmo contra a vontade do povo, alegando que havia uma igreja próxima, em Passo Manso, dedicada a São Sebastião.
Naquela época era comum o falecimento de crianças e próximo à igreja, foi feito logo um cemitério.
O primeiro adulto a ser sepultado no cemitério de Rio Waldrich foi Germano Haverroth. Quando adoeceu, Germano foi levado até Blumenau, onde ficou internado no hospital por pequeno período e recebeu alta porque estava com câncer. Faleceu em 16 de outubro de 1944. Nove meses depois faleceu também a esposa Ana, em 20 de julho de 1945.