Capítulo 16 de 41
Aventuras e enganos
Aventuras, enganos e desenganos também fazem parte das lembranças de minha infância.
Uma vez fizemos um passeio a pé, até Rio Wildi, na casa do tio Paulo. Fomos em quatro: o Zeca (José), a Salomé, eu e a Nilta Schörner (filha dos nossos vizinhos Lindolfo e Matilde). Saímos após o almoço de sábado. Recebemos as instruções para a viagem: se chovesse deveríamos entrar em alguma casa por onde estivéssemos passando e esperar a chuva parar. Não deu outra. Conseguimos chegar até a casa de Simão Eyng, bem no início de Rio Waldrich e já a chuva começou. Sorte que foi um aguaceiro rápido. Assim que passou, continuamos nosso caminho e chegamos à casa do tio ao entardecer.
A tia Lúcia estava no terreiro, depenando uma galinha e logo chamou as crianças para nos receber. Brincamos bastante, principalmente com as primas Cecília e Isaura que eram de nossa idade. Ficamos lá até domingo à tarde e voltamos também a pé. Foi uma longa caminhada, mas foi também um passeio muito divertido, tanto que ficou na memória.
Como toda criança, eu gostava muito de sair com o pai e lembro de algumas oportunidades em que pude fazer isto. Uma vez eu fui com ele buscar palmeiras lá nas terras do tio Paulo, para enfeitar a igreja, em recepção ao bispo ou algum padre que estaria chegando a Rio do Campo. Fomos pela manhã, bem cedo. Chegando lá o pai conseguiu as palmeiras, cortou-as e colocou na carroça. Aí ficamos para o almoço e, logo no início da tarde, armou-se uma grande trovoada. Esperamos um pouco para que passasse. Foi a maior chuva de granizo que me lembro de ter visto. Depois que passou, pegamos o caminho de volta para casa, com estrada molhada e muito frio.
Em outra ocasião eu pude ir até Ribeirão Grande em companhia do pai, porque tinha dado uma enchente que estragou as estradas e o caminhão não pode vir buscar o leite que os colonos vendiam para o seu Guilherme Dalri. Então ele mandou um recado para alguém levar o leite de carroça e o pai foi fazer isto. Fomos à tarde, parando de casa em casa, onde havia latões de leite à beira da estrada e chegamos lá à noite. Ficamos para dormir na casa dele e só voltamos no dia seguinte.
Fui também uma vez com o pai até Rio Azul, no tempo em que ele levava mandioca para a fécula de Paulo Marcelino Fernandes. Naquele dia, pude andar dentro do reservatório de massa e fiquei com os pés bem limpos e branquinhos.
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Por diversas ocasiões confundi palavras do idioma alemão com o português. Uma vez eu estava muito gripada e o pai com a mãe combinaram de me levar na farmácia, para receber uma injeção. Como a palavra “injeção” em alemão, para mim, se parecia com “benzer”, eu achei que iria receber uma bênção das Irmãs da farmácia. Era domingo, e como chovia muito, o pai me levou com ele, a cavalo, embaixo da enorme capa preta. Fomos primeiro à missa e depois à farmácia. Chegando lá o pai conversou com a Irmã que era enfermeira e só então me dei conta de meu engano, em vez de me benzer, ela me aplicou uma injeção.
Outra vez foi quando se iniciou na escola a comemoração do “Dia das Mães”. As irmãs nos ensinaram a pedir que o pai comprasse um presentinho para a mãe e o guardaríamos na escola para entregar na hora da homenagem. Um dia, pela manhã, quando a Salomé e eu estávamos prontas para ir à escola, o pai nos falou em segredo, para pegarmos o presente que ele havia comprado na Farmácia de Dilermando Thiesen. Como a palavra “pente”, em alemão, para nós, era semelhante a “bule”, pensamos que o pai havia comprado dois bules e pela estrada íamos imaginando como seriam. Ficamos surpresas quando em vez de bules o comerciante nos entregou dois pentes.